O CÉREBRO TRINO E A NOSSA CASA MENTAL

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Irvênia L. S. Prada *


Na recente publicação “Minds behind the Brain (2000), de STANLEY FINGER, encontra-se logo no Prefácio, a expressão “The Organ of Mind”, referente ao cérebro. ANDRÉ LUIZ já emitia esse mesmo conceito em “No Mundo Maior” (1947, cap. 4), ao assinalar: “O cérebro é o órgão sagrado de manifestação da mente, em trânsito da animalidade primitiva para a espiritualidade humana.”
É interessante atinarmos para a segunda parte desse enunciado de ANDRÉ LUIZ, pois também na ciência acadêmica tem-se o conceito de que o cérebro apresenta, do ponto de vista evolutivo, nas diferentes espécies (desenvolvimento filogenético), um “continuum” que se vidência pelo acréscimo de novas estruturas às que já existiam no estágio anterior, resguardadas as características de cada grupo. Portanto, o cérebro dos animais e o do ser humano são constituídos segundo um mesmo modelo.
Para ERNEST HAECKEL (naturalista alemão do séc. XIX), “a ontogênese (do grego ontos =ser) recapitula a filogênese”, pois que ao se constituir um novo ser, durante o seu processo de desenvolvimento (ontogênese), ele passa por fases que por assim dizer “recordam”, “recapitulam” estágios que caracterizam espécies mais primitivas. Assim é que, entre inúmeros exemplos, são encontrados nos embriões de mamíferos, arcos e fendas branquiais, que são estruturas próprias dos peixes. Este mesmo aspecto permeia a organização não apenas do cérebro mas, de todo o sistema nervoso (SN) do ser humano, que reflete hoje a somatória de diferentes estágios que encontramos entre os animais.
Conforme refere CARL SAGAN em seu livro “Os Dragões do Éden” (1977 – cap. III – “O Cérebro e a Carroça”), o principal expoente contemporâneo desse estudo evolutivo do SN humano é PAUL MAC LEAN que aborda em seu trabalho, diferentes espécies animais, desde lagartos até macacos, alem do homem. Este autor postula que, no SN Central humano, a medula espinal e o tronco encefálico representam partes formadas por unidades que se sucedem, enquanto o cérebro e o cerebelo tem formação concêntrica, ou seja, em camadas que se justapõem sobre um núcleo inicial. Observando a estrutura dessas diferentes partes, em diferentes grupos de animais, MAC LEAN estabeleceu o que chamou de “Lei de Maturidade e de Estabilidade Evolutiva”. Assim, considera que a medula espinal (Complexo Segmentar ou “S”) já se apresenta estabilizada desde os peixes, ou seja, peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos exibem (apesar das características próprias), o mesmo modelo básico de estruturação da medula espinal.
Quanto ao tronco encefálico (Complexo Reptiliano ou “R”), estabilizou-se apenas a partir dos répteis. Poderíamos pensar que a natureza tentou um modelo nos peixes, depois nos anfíbios mas, foi a partir dos répteis que esse modelo teve aval para continuar, como continuou, a caracterizar o tronco encefálico de aves e de mamíferos, inclusive o homem.
Por sua vez, o cérebro (Complexo de Cerebralização), representado pelos sub-estágios Opto-Estriado (ou Tálamo-Estriado), Sistema Límbico e Córtex Cerebral, encontra-se ainda instável, o que sinaliza a possibilidade de mudanças futuras.
Em “The Triune Brain in Evolution” (1968), MAC LEAN comenta que a medula espinal e o tronco encefálico representam a maior parte da maquinaria requerida para o desempenho das funções de autopreservação e de perpetuação da espécie. Muitos dos vertebrados mais desenvolvidos são providos desse “chassi neural”, guiado não apenas por um “motorista” mas, por uma combinação simultânea de três condutores, cada um deles com idade evolutiva diferente e também com características radicais próprias em estrutura orgânica, metabolismo bioquímico e organização funcional.
A partir de experiências realizadas com macacos, MAC LEAN concebeu interessante modêlo (“Cérebro Trino”) da estruturação evolutiva do cérebro humano. Diz ele: “Somos obrigados a nos olhar e a olhar o mundo através dos olhos de três mentalidades bastante diferentes, duas das quais carecem do poder da fala”. Reconhece assim, no encéfalo (melhor aqui usar-se a expressão encéfalo que cérebro, pois que a formação reptiliana envolve também porção do tronco encefálico), a existência de três formações que se dispõem concentricamente: a reptiliana, a paleomamífera e a neomamífera.
Temos muitas razões para focalizar com interesse, o estágio reptiliano de desenvolvimento do cérebro. Em “Evolução em dois Mundos” (1958), ANDRÉ LUIZ estabelece, no cap. IX (Evolução e Cérebro), que “A massa de células nervosas que precede a formação do cérebro, nos invertebrados, dá lugar à invaginação do ectoderma, nos vertebrados, constituindo-se, lentamente, a vesícula anterior ou prosencéfalo, a vesícula média ou mesencéfalo e a vesícula posterior ou rombencéfalo. Nos peixes, os hemisférios cerebrais mostram-se ainda muito reduzidos, nos anfíbios denotam desenvolvimento encorajador e nos répteis avançam em progresso mais vasto…aprimorando-se, com mais segurança, em semelhante fase, na forma espiritual, o centro coronário do psicossoma futuro, a refletir-se na glândula pineal, já razoavelmente plasmada em alguns lacertídeos (entenda-se lagartos)… é aí que a epífise começa a consolidar-se, por fulcro energético de sensações sutis para a tradução e seleção dos estados mentais diversos, nos mecanismos da reflexão e do pensamento, da meditação e do discernimento…”
Voltando ao relato de MAC LEAN, encontramos a consideração de que a Formação Reptiliana, Complexo “R” ou Cérebro Arcaico continua-se do próprio tronco encefálico (portanto, mantendo o compromisso das funções de auto-preservação e de perpetuação da espécie) e compreende também um conjunto de núcleos de substância cinzenta, localizados na profundidade dos hemisférios cerebrais em répteis, aves e mamíferos. Entende-se que esses núcleos representam o corpo estriado, sobreposto à região talâmica. O tálamo (chamado antigamente de tálamo-óptico, por acolher a inserção dos tratos ópticos) e o corpo estriado compõem conjuntamente um complexo sensitivo – motor (tálamo-estriado ou opto-estriado).
MAC LEAN ainda comenta, em “The Triune Cerebrum in Evolution” , que os resultados de experimentos neuro-comportamentais em répteis e macacos indicam que o Complexo “R” é basicamente implicado na integração dos componentes somático e autonômico envolvidos na expressão de vários comportamentos. Indicam ainda que o Complexo R encontra-se envolvido com fatores cognitivos que lideram a evocação de alguns comportamentos. MAC LEAN acrescenta que, assim sendo, pode-se dizer que o Complexo R tem uma mente própria (“has a mind of its own”).
Conforme ressalta CARL SAGAN, em “Os Dragões do Éden”(1977), o Complexo R desempenha importante papel no comportamento agressivo (pelo envolvimento do núcleo amigdalóide ou amígdala), na demarcação territorial, nas práticas ritualísticas (de acasalamento, por exemplo) e no estabelecimento da hierarquia social.
É surpreendente, continua SAGAN, quanto de nosso comportamento pode ser descrito em termos reptilianos. Falamos comumente em assassinatos a “sangue frio” e o conselho de Maquiavel em “O Príncipe” era o de “assumir a fera”. É impressionante a quantidade de mitos e de lendas, em várias culturas, sobre dragões e serpentes, enfim, sobre répteis (como a figura de São Jorge matando o dragão e a simbologia da “Tentação” de Adão e Eva pela serpente), o que talvez ressalte de maneira alegórica, a importância de atuação do complexo cerebral reptiliano, em nossas vidas.
Quanto à Formação Paleomamífera, na transição evolutiva entre répteis e mamíferos, três comportamentos básicos são desenvolvidos: 1) proteção e cuidados maternais; 2) comunicação audiovocal para manutenção do contato maternal com a prole; 3)comportamento lúdico. Em mamíferos, a origem do comportamento de proteção e cuidados materno/paternais marca o início da evolução da família e consequentes responsabilidades a ela associadas. Por sua vez, o “cuidar” de outro indivíduo, o importar-se com o outro, marca os primórdios dessa atitude de comportamento que, no ser humano chamamos de altruísmo.
São interessantes as implicações do Complexo “R” e da Formação Paleomamífera em questões epistêmicas e epistemológicas, segundo comentários do próprio MAC LEAN, entre as quais destacam-se:


– Nativismo – Em répteis e aves observados (ex.-perús), quando um dos indivíduos é afastado temporariamente do grupo, ao aproximar-se novamente é repelido, como se fosse um “estranho”. Essa talvez seja a resposta atávica, por exemplo, à queixa de muitos veteranos da Guerra do Vietnan de que, ao retornarem para casa, foram recebidos e tratados como indesejáveis estranhos;


– Intolerância a Marcas – Em um caso sugestivo, observou-se que em uma ninhada de patinhos, um deles, apos adquirir uma mancha de sangue no lado direito de sua cabeça, como resultado de algum traumatismo, passou a ser discriminado por sua mãe que persistentemente o afastava dos outros patinhos. Afastado de sua família, foi logo apanhado por um predador. Feita com tinta, marca similar em outro patinho, repetiu-se o mesmo comportamento de rejeição, o que sugere haver uma linguagem de sinais, de marcas. Sabemos que particularmente a cor vermelha, em animais de sangue vermelho, podem sinalizar para a mãe que um filhote ferido ponha em risco toda a ninhada, não apenas pelo seu enfraquecimento, que doente pode representar uma fonte de infecção para os outros, como pelo perigo de predadores, atraídos pelo característico cheiro do sangue. Talvez aí estejam as raízes comportamentais filogenéticas dos nossos preconceitos e razões de intolerância ao que interpretamos como “marcas”, como diferenças de cor, raça, formas étnicas de comportamento, religião e credos políticos. Uma inata propensão à intolerância de marcas talvez possa ajudar-nos a entender o comportamento agressivo até com derramamentos de sangue, que manifestam uns contra os outros, grupos radicais em características religiosas, raciais ou simplesmente culturais;


– Aspectos Educacionais – O grupo dos mamíferos surgiu com a característica social da proteção materna e uma considerável redução do numero de filhotes. Com o aumento do numero de alunos nas classes, resultando em confinamento social, cada criança recebe menos atenção pessoal, o que pode contribuir não apenas para um rebaixamento da qualidade de ensino como para comportamentos geradores de desordem e/ou ociosidade. No cérebro Arcaico temos o “pulso” de que precisamos chamar a atenção de alguém que nos cuide, para sobrevivermos.
A Formação Neomamífera corresponde ao Neocortex, complexo de diferentes funções que se torna progressivamente mais desenvolvido nos mamíferos mais evoluídos.
Segundo WILLIAM H. CALVIN, em “The Emergency of Intelligence” (Scientific American, october/94), o neocortex, intimamente relacionado aos processos de inteligência, apresenta extensão em área, correspondendo a quatro folhas de papel-ofício no homem, a uma dessas folhas no chimpanzé, a um envelope de carta nos pequenos macacos e a um selo de carta, nos ratos. No neocortex distinguem-se vários lobos: frontal,
É maravilhosa a associação que podemos efetuar desses conhecimentos que a Ciência nos traz com conteúdos de obras da Doutrina Espírita. É impressionante a óbvia ligação entre as informações exaradas por MAC LEAN e a estruturação de nossa Casa Mental, referida por ANDRÉ LUIZ em “No Mundo Maior” (1947, cap. 3 – A Casa Mental).
Diz ele, resumidamente: “No Sistema Nervoso, temos o cérebro inicial, repositório dos movimentos instintivos e sede das atividades subconscientes; figuramo-lo por porão da nossa individualidade, onde arquivamos os menores fatos da vida; aí moram hábito e automatismo. Na região do córtex motor, temos o cérebro desenvolvido consubstanciando as energias motoras de que se serve a nossa mente para as manifestações imprescindíveis no atual momento evolutivo do nosso modo de ser; aí localizamos o domínio das conquistas atuais, onde residem esforço e vontade. Nos planos dos lobos frontais, jazem materiais de ordem sublime que conquistaremos gradualmente, no esforço de ascensão, representando a parte mais nobre de nosso organismo divino em evolução; aí demoram o ideal e a meta superior a ser alcançada. Distribuímos, desse modo, nos três andares, o subconsciente, o consciente e o superconsciente. Como vemos, possuímos, em nós mesmos, o passado, o presente e o futuro”.
Portanto, ANDRÉ LUIZ também considera (antecipadamente a MAC LEAN) o encéfalo humano consubstanciado em três partes, cada uma delas interagindo com um dos três andares de nossa casa mental.
Particularmente, ANDRÉ LUIZ coloca em um só bloco, o complexo reptiliano e o sistema límbico (de MAC LEAN), desdobrando a atuação do neocortex em dois níveis: a região do córtex motor e a dos lobos frontais. Para o meu entendimento, a colocação de ANDRÉ LUIZ é, do ponto de vista funcional, mais adequada na interação com os três níveis considerados, para a casa mental. ANDRÉ LUIZ que me perdoe o atrevimento, mas poderíamos considerar no bloco relativo ao córtex motor, também todas as áreas sensitivas. Diríamos, então “córtex sensorio-motor”, à maneira de PIAGET. Não que se transmita a idéia de um córtex que atue simultaneamente em sensibilidade e motricidade. Quase sempre podemos separar áreas corticais sensitivas e áreas motoras. Entenda-se, portanto, que o córtex sensorio-motor compreenderia as áreas do córtex, sensíveis à recepção e processamento de estímulos (de dor, temperatura, tato, pressão, visuais, auditivos, etc.) bem como áreas motoras das quais se destaca, pela importância funcional, a chamada área motora piramidal ou voluntária, pois interage com os comandos de nossa vontade. Ao focalizar diretamente o córtex motor, ANDRÉ LUIZ foi direto ao assunto considerando, no complexo “estímulo – resposta”, o componente final, a resposta, que é efetuada, realmente, pelo córtex motor. Entretanto, como esse contendo é muito técnico, julgo que o fato de considerarmos o passo anterior do processo, isto é, a necessidade da atuação das áreas sensitivas, facilita o nosso entendimento.
Voltando à associação de complexo reptiliano e sistema límbico em um mesmo bloco, isso é coerente porque o sistema límbico vai trabalhar com a expressão de comportamentos acompanhados de emoções (primárias), e esses comportamentos são particularmente ligados a funções básicas, isto é, sexuais e reprodutivas (perpetuação da espécie) e de auto-preservação (marcação de seu território, ataque – defesa, funções alimentares, etc.).
Por sua vez, o lobo frontal, particularmente a porção mais anterior dos lobos frontais possui um neocortex de aquisição filogenética recentíssima! Representa a chamada área pré-frontal do neocortex. Ela é considerada a base funcional das chamadas funções psíquicas superiores, tais como capacidade de julgamento, crítica de situações, estratégias de comportamentos, livre – arbítrio, capacidade de aprendizado e de associação de idéias, ideação futura, planejamento, censura, etc. Enfim, as nossas mais nobres funções mentais são manifestadas fenomenicamente por intermédio da atuação das áreas pré-frontais.
Este neocortex também tem sua historia evolutiva, pois ele já se encontra relativamente desenvolvido em alguns animais, como é o caso dos chimpanzés. Aliás, em relação a isso encontramos interessante comentário de CARL SAGAN em “Os Dragões do Éden”: – “Se os chimpanzés tem consciência, se tem capacidade de abstração, não devem eles ter acesso aquilo que se convencionou chamar até agora de direitos humanos? Que inteligência terão de atingir até que seu assassínio seja considerado crime?”
Temos também no mesmo cap. 3 de “No Mundo Maior”, de ANDRÉ LUIZ:“Não somos criaturas milagrosas, destinadas ao adorno de um paraíso de papelão. Somos filhos de Deus e herdeiros dos séculos, conquistando valores, de experiência em experiência, de milênio a milênio. A crisálida de consciência, que reside no cristal a rolar na corrente do rio, aí se acha em processo liberatório; as árvores que por vezes se aprumam centenas de anos, a suportar os golpes de Inverno e acalentadas pelas carícias da Primavera, estão conquistando a memória; a fêmea do tigre lambendo os filhinhos recém-natos, aprende rudimentos do amor; o símio, guinchando, organiza as faculdades da palavra”.
Assim se estrutura a casa mental, de experiência em experiência, interagindo com a matéria e orientando a organização morfo-funcional do cérebro. Não estaria Jesus se referindo à casa mental, ao discorrer sobre a edificação de nossa casa sobre a rocha ou sobre a areia? Vamos rever a passagem? Está em MATEUS 7: 24-27 “Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica, será comparado a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, que não caiu, porque fora edificada sobre a rocha. E todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica, será comparado a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína”.
A simbologia de “a casa desabar” é registrada na ocorrência dos processos obsessivos graves, principalmente na subjugação, quando a vontade do obsidiado é dominada pelo espírito obsessor, sendo então rebaixada”. O indivíduo como que se recolhe ao seu porão. Perde a capacidade de comandar sua própria vida.
Refere ANDRÉ LUIZ em “No Mundo Maior”, cap.3 e 4, ao analisar a situação das mentes do obsessor – obsidiado, unidas no processo simbiótico do ódio e da vingança: “Espiritualmente, rolaram do terceiro andar, onde situamos as concepções superiores, e entregando-se ao relaxamento da vontade, deixaram de acolher-se no segundo andar, sede do esforço próprio, perdendo valiosa oportunidade de reerguer-se; caíram, destarte, na esfera dos impulsos instintivos, onde se arquivam todas as experiências da animalidade anterior. E completa: “Outra seria a situação de ambos se houvessem esquecido a queda, reerguendo-se pelo trabalho construtivo e pelo entendimento fraternal, no santuário do perdão legítimo”.
A figura de Nabucodonosor, rei babilônico, relatada em DN 4.30 parece expressar bem a situação do espírito que rolou as escadas de sua casa mental, retomando a vivência de seus estágios primitivos, de sua “animalidade anterior”. “Foi expulso entre os homens e passou a comer erva como os bois, o seu corpo foi molhado pelo orvalho do céu, até que lhe cresceram os cabelos como as penas da águia e as suas unhas como as das aves…” No versículo seguinte, entendemos como Nabucodonosor consegui vencer o processo obsessivo, pois aí lemos: “…levantei eu, Nabucodonosor, os meus olhos ao céu e tornou-me a vir o sentido; e eu bendisse ao Altíssimo e louvei, glorifiquei ao que vive eternamente”.
Para o confrade F.E. MINGHELLI, em “A Reencarnação – out/92 – FERGS, nos processos obsessivos que atingem funções mentais mais elevadas, há uma espécie de “desligamento” dessas atividades superiores. Quem assume o comando do corpo, então, são as áreas mais primárias e instintivas, que fazem o corpo executar automaticamente suas funções, independentemente da vontade, da razão e dos sentimentos, como nos casos de subjugação grave.
Em contra partida, a passagem de Daniel (DN.6.22), lançado à cova dos leões, é significativa: “O meu deus enviou o seu anjo e fechou a boca dos leões, para que não me fizessem dano, porque foi achada em mim inocência diante dele”.
Daniel, sempre entregue a orações, certamente vivia sintonizado no 3º andar de usa casa mental, tendo consequentemente serenado já, as suas “feras”, entenda-se, os seus impulsos instintivos, primários.
É conveniente nos lembrarmos de que expressões como “estágios animais”, “animalidade” e outras similares, em absoluto não tem o significado de maldade, violência, coisa ruim, mas sim aludem a fases primitivas, fases iniciais da evolução do ser.
Em resumo, em nossa milenar trajetória, fomos conquistando, passo a passo, os elementos estruturais que nos garantiram o cérebro que temos, “órgão” de expressão de nossa mente. Em sua profundidade, os elementos que intermediam as funções orgânicas básicas e, no córtex, particularmente o do lobo frontal, a possibilidade de transdução das chamadas funções psíquicas superiores. Detentores de livre-arbítrio, cabe-nos a opção de sintonia com ideais e nobres metas de ascensão espiritual ou, no relaxamento da vontade, com patamares primitivos de nossa casa mental.

De EMMANUEL, em “Roteiro”, temos a palavra de incentivo:

“Partindo dos elos que o prendem à estreita família do mundo, o homem que desperta para

a grandeza da criação deambula na Terra, à maneira do viajante incompreendido e desajustado, peregrino sem pátria e sem lar, a sentir-se grão infinitesimal de poeira

nos domínios celestiais. Nesse homem, porém, alarga-se a acústica da alma e,

embora os sofrimentos que o afligem, é sobre ele que as inteligências

superiores estão edificando os fundamentos da Nova Humanidade”.

(eu grifei)

* Professora Catedrática e Médica Veterinária da Universidade de S. Paulo (USP), sendo uma autoridade mundial na comunidade científica sobre “Neuroanatomia Animal”, é também uma respeitada investigadora espírita em particular da “Interacção Cérebro-Mente” dos animais. Com vários livros e estudos científicos e espíritas publicados.

Ex-Presidente da Comissão de Ética da Faculdade de Medicina Veterinária da USP.

Ex-Presidente do Conselho Orientador da Fundação Parque Zoológico de São Paulo.

texto – http://ameporto.org/pt/artigos

imagem – jornallivre.com.br

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