A relevância dos monstros na literatura a partir de Frankenstein

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Raphael Ranieri

Por um tempo, parecia que os monstros do mundo antigo tinham ido embora de vez. O Iluminismo, com seu interesse direto sobre a racionalidade e o empirismo, buscou banir os monstros – frutos, obviamente, do misticismo – para lançar as luzes da razão sobre os cantos escuros onde eles habitavam. Na era da exploração, no final do século XVIII e início do XIX, terras distantes agora eram habitadas por animais incomuns, sim; mas não por algo monstruoso, ou fora da ordem natural.

No início do século XVIII, tornou-se famosa a história de um suposto espécime de Hidra – sim, o monstro grego – taxidermizado, em posse de um burgomestre de Hamburgo, na Alemanha. Relatos davam conta de um animal imenso com sete cabeças e um corpo de serpente. Um jovem chamado Carl Linnaeus viajou para conferir esse expurgo do mundo antigo. E imediatamente detectou a fraude.

Segundo as informações que reuniu, Linnaeus inferiu que tratava-se da obra de um mestre taxidermista, provavelmente um monge medieval, que buscava demonstrar a veracidade do Livro do Apocalipse, e convencer os fiéis de que o fim estava próximo. O monge, de certa forma, estava certo – uma era estava para acabar. Só errou em relação a qual.

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Hoje, Linnaeus é reconhecido como um dos pais da biologia contemporânea. O filósofo americano Stephen Asma, conhecido estudioso da trajetória do conceito de monstros, diz que a refutação de Linnaeus da Hidra de Hamburgo foi uma das grandes indicações da era científica por vir:

A ciência estava em ascensão, e os monstros do mundo antigo estavam sendo expostos como rumores, ou sendo esclarecidos e classificados de um novo sistema de leis naturais uniformes (…) Uma grade conceitual de categorias hierárquicas foi colocada sobre o aparente caos da natureza, e uma perene ordem foi imposta sobre a também aparente infinita diversidade da criação (…).”

Entretanto, o ceticismo é uma constante desse período, e muito se duvidava também em relação às próprias conclusões científicas. Afinal, estando em sua alvorada contemporânea, muitas lacunas ainda estavam por ser preenchidas – e onde existem lacunas de conhecimento, a imaginação permeia. Talvez seja exatamente por isso que, paradoxalmente, tenha emergido dessa era de avanço científico o primeiro grande monstro da história da literatura moderna – em 1818, Mary Shelley escreve Frankenstein.

O monstro! – Mas quem?

Victor Frankenstein, ao contrário do que ditaria o clichê moderno, não é um doutor, mas sim um estudante de biologia que leva o seu trabalho de laboratório um pouco a sério demais. E Frankenstein acaba criando aquele que talvez seja, discutivelmente, o mais famoso de todos os monstros. O que seria bastante apropriado, visto que o monstro de Frankenstein representa um desenvolvimento importante na história dos monstros.

No romance de Shelley, o monstro fala por si próprio. Ele justifica suas ações, explica por que se tornou monstruoso – em tese, por não ter recebido o carinho e aceitação de seu criador, estabelecendo uma dimensão psicológica do personagem, criando uma ponte direta entre este e o leitor, que nos leva a simpatizar com ele. Em Frankenstein, o monstro não é uma ameaça distante, sobrenatural, religiosa ou mística – o monstro somos nós.

Isso implicaria que monstros não nascem, mas são criados. Esta realização talvez seja o maior legado das histórias de monstros do século XIX. O Dr. Jekyll libera o Sr. Hyde por causa das repressivas condições sob as quais ele vive enquanto um cavalheiro vitoriano; Dorian Gray se torna um monstro porque seu retrato lhe permite agir como quiser; os homens-fera do Dr. Moreau assim o são por conta dos devaneios de um típico cientista louco do século XIX.

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O uso dos monstros varia imensamente, mas, após Frankenstein, quase sempre partem de um mesmo princípio. Na cultura liberal do ocidente, nós dramatizamos a ira de uma criatura monstruosa – como o próprio Frankenstein – e então repreendemos a nós e a nossa “sociedade intolerante” por alienar o excluído em primeiro lugar. A culpa é sempre do outro.

A lição liberal aí – quase sempre vinda à um grande custo nessas obras – é uma de tolerância: nós precisamos superar nossas tendências a busca de bodes expiatórios e nossa xenofobia inata. Claro, isso não significa em absoluto a única interpretação de histórias de monstros – mas indica certamente uma mudança brusca de pensamento, no que toca a questão da nossa auto-investigação, em relação aos mundos antigo, medieval e moderno.

A mente medieval via gigantes e criaturas míticas como punições de Deus. Na mitologia greco-romana, monstros eram prodígios – alertas de calamidades iminentes. Os monstros dos mitos e lendas nasceram assim. Os monstros da literatura de horror do século XIX eram criados. O que nos traz a questão levantada por Frankenstein – quem são os monstros, as criaturas ou os criadores?

Novos monstros para novos tempos

Monstros do século XIX refletiam o avanço das ciências biológicas e de novas disciplinas, como a antropologia e a arqueologia. É muito fácil conectar as descobertas arqueológicas feitas principalmente no Egito durante o período, com a introdução de um novo tipo de monstro: a múmia, que pode ser encontrada em trabalho como A Jóia das Sete Estrelas, uma das obras tardias de Bram Stoker, já em 1903.

A múmia é o típico exemplo de como aquelas lacunas de conhecimento são preenchidas com a imaginação – enquanto a egiptologia ainda era uma ciência em formação, sabendo-se pouquíssimo dos hábitos ou da crença dos egípcios antigos, o que não se sabia foi inferido como magia, maldições e pragas do mundo, antigo prontas para assolar o incauto cavalheiro contemporâneo.

O fim desse século também introduziu um monstro que seria melhor desenvolvido no século seguinte: o monstro do espaço sideral. Os marcianos de H.G. Wells em Guerra dos Mundos podem ser considerados – porque não – os precursores do Cthulhu lovecrafitiano. Os shoggoths e deuses ancestrais de Lovecraft são alienígenas não só porque vem do frio e da escuridão do espaço sideral, mas também porque são inimigos a e além da compreensão do que os humanos conhecem.

Neles, nós podemos ver uma nova perspectiva do mundo, associada com física e astronomia avançada: a ideia de que, dentro do cosmos, seres humanos são uma parte insignificante submissa a forças que eles não podem compreender. Ao contrário dos monstros dos mitos e lendas, não há como lutar contra estes. Nenhum herói ou santo pode nos salvar deles.

A natureza do medo

Os monstros da literatura nos fazem tremer de um agradável medo, mas quem nós chamamos de monstro, e porquê, tem consequências. De acordo com o professor Asma, durante o século XIX, os “shows de aberrações” e “espetáculos de monstros” – talvez melhor representados pela lenda de Joseph Merrick, o Homem-Elefante – eram comuns; tal exploração de pessoas com severas deficiências é claramente um dos pontos mais baixos de qualquer padrão ético da nossa civilização, mas um claro reflexo da atração que o medo do “desconhecido”, do “incompreendido”, provoca sobre as pessoas.

Em O Retrato de Dorian Gray, Dorian se dirige a administradora judia do teatro que emprega seu interesse amoroso, Sybil, como um monstro. Não é preciso ser muito versado em história para saber que os judeus em particular sempre foram marginalizados e tratados como monstros através da história europeia – com destaque óbvio para a “eugenia” nazista.

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Entretanto, Dorian é aquele cuja irresponsabilidade e crueldade são responsáveis pela morte de Sybil. Oscar Wilde, autor de Dorian Gray e um membro de grupos historicamente marginalizados no período (tanto irlandês quanto homossexual), deixa claro o perigo de rotular um indivíduo ou grupo como “monstros”. Isso dá a nossa sociedade permissão para nos comportarmos como os camponeses das versões cinematográficas de Frankenstein – tochas, forcados e um final infeliz para todos.

Está claro que, principalmente após Frankenstein e a literatura de monstros do século XIX, o que mais nos atrai na ideia de monstro não é o monstro em si, mas o que ele representa para o espectador. Afinal, por que nós temos a tendência a usar tal termo para definir o que desconhecemos?

De acordo com o professor Asma, “experimentos demonstram que animais e humanos respondem às suas primeiras experiências internalizando um sistema cognitivo classificatório baseado nas criaturas que eles encontram regularmente. Depois de um certo tempo, o sistema de classificação se solidifica em uma estrutura cognitiva, e qualquer subsequente encontro estranho ou inclassificável produz medo no objeto. O desajuste categórico provoca extremo desconforto.”

Está resposta de medo ao desajuste categórico é similar ao que Freud chama de “O Inquietante” (The Uncanny). Freud não é muito bem sucedido nesse sentido; decifrar o que nos faz ter arrepios, ou gritar de medo. Mas seus exemplos frequentemente envolvem desajustes categóricos típicos da literatura de monstros: um autômato que volta a vida, membros que se movem sozinhos, duplicatas de um único ser, como Dr. Jekyll e Sr. Hyde.

O que todos esses fenômenos têm em comum é que nós não conseguimos categorizá-los. Pior, eles são oriundos daquilo que deveria dar sentido ao mundo – a ciência e o conhecimento formal e racional. Monstros, enfim, são uma espécie de “balaio”, onde jogamos tudo àquilo que não conseguimos nomear.

Após Freud, as histórias de monstros podem ser consideradas jornadas catárticas em direção nosso inconsciente. Todos nós contemos um Sr. Hyde dentro de nós, e essas histórias nos permitem flertar com nosso “lado selvagem” – mesmo que no desenlace da maior parte dessas histórias, o monstro seja morto, e a psique restaurada a sua “ordem civilizada”.

O que os monstros tem a nos dizer

Os perigos e a trajetória do século XX nos deixam, na verdade, até nostálgicos em relação aos monstros da velha-guarda; incidentalmente, um dos motivos do sucesso dos monstros no cinema na primeira metade deste século. Entretanto, dada nossa atitude moderna, é mais improvável que saiamos correndo em pânico, e mais provável que sentemos e ouçamos as histórias que esses monstros tem para contar.

De acordo com o crítico Christopher Craft, histórias de monstros da literatura – e agora, também do cinema – como Frankenstein, O Médico e o Monstro, ou os vampiros de Anne Rice, se baseiam em uma estrutura similar: “cada um desses textos convida ou admite um monstro; então, o entretém ou é entretido por ele durante um certo período, até que, próximo do encerramento, eles expurgam ou repudiam esse monstro, e toda a perturbação que eles provocam.”

Dessa forma, os monstros modernos da literatura e do cinema podem ser estabelecidos como símbolos da vulnerabilidade e da crise da condição humana – sendo interpretados como camadas criativas de pensamento sobre como respondemos a essas ameaças. Parte do nosso fascínio vem do fato de que medos irracionais definitivamente não são divertidos – nós somos vulneráveis tanto a forças externas quanto internas. Histórias de monstros somente nos capturam quando conseguimos nos identificar com as pessoas que estão sendo molestadas – essencialmente nos questionar: o que eu farei quando eu estiver vulnerável?

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Como já explicado aqui em outros artigos, o século XIX foi uma era de avanço, mas também de incerteza. Seguindo o rastro de destruição das crenças e do misticismo, a literatura gótica e de monstros do período perverteu os estandartes do Iluminismo: a razão, a filosofia e a ciência, transformando-os em geradores do desconhecido. Por isso, talvez, a ideia de monstros tenha permanecido tão firme após essa época, se estendendo para além das chagas da Primeira Guerra Mundial e da Grande Depressão; período o qual sucederam os lendários filmes de monstros da Universal, que mantiveram essas lendas vivas para um novo público e uma nova época.

Mas se você quiser saber sobre essa história, vai ter que ler o artigo do meu amigo Miguel

Se tiver coragem.

Gostou desse artigo? Ele faz parte do nosso especial A Múmia! Não deixe de conferir a crítica do filme com Tom Cruise, o ranking dos melhores fimes, as melhores versões da Múmia, uma breve reflexão sobre a trajetória dos filmes de terrormonstros nos quadrinhos,  e a evolução do gênero de terror na literatura!

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