Star Trek: 50 anos depois, ainda audaciosamente indo!

 Formiga Elétrica  – Este artigo foi originalmente escrito por Sidney Perkowitz, publicado pela revista Nature em 7 de Setembro de 2016. Confira o texto original aqui!

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Meio século atrás, em Setembro de 66, o primeiro episódio de Star Trek foi ao ar na rede de televisão americana NBC. Ainda levaria três anos para que a NASA começasse a colocar pessoas na Lua, mas mesmo assim a inovadora série já estava mandando pessoas a anos-luz de distância do nosso sistema solar todas as semanas. Apesar de alguns soluços, a série atingiu seu status de cult, junto com a inimitável tripulação da USS Enterprise, liderados pelo Capitão James T. Kirk (William Shatner). Ela entrou no sistema de sindicância (Nota do amigo editor – syndication, um modelo de distribuição televisiva pouco conhecido no Brasil) e gerou 6 outras séries de televisão até 2005 – agora também já existem treze filmes de cinema, com Star Trek: Sem Fronteiras tendo estreado no Brasil em 1 de Setembro de 2016.

Parte da magia que ainda perdura de Star Trek é a sua mistura vitoriosa de tecnologia do século 23 e a diversidade e complexidade reconhecíveis consagrada nos seres – humanos e outros – criados pelo pensador da série, Gene Roddenberry, e seu time de escritores. Como o próprio Roddenberry disse, “Nós enfatizamos humanidade.” A série assumiu o manto de sua ética quando a Guerra do Vietnã estava no auge e protestos pacifistas se proliferavam na mesma medida, junto com tensões raciais que culminaram em enormes conflitos urbanos em 1967-68. A Federação dos Planetas Unidos, um tipo de ONU galáctica, é uma sociedade avançada que porta tecnologia avançada, e os objetivos não-militares da Enterprise são entoados no início de cada episódio da série original (TOS): “Explorar estranhos novos mundos, buscar novas formas de vida e novas civilizações; audaciosamente indo onde nenhum homem (posteriormente, ‘ninguém’) jamais esteve.”

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Com o passar das décadas, as tecnologias de Star Trek incendiaram a imaginação de físicos, engenheiros e desenvolvedores de tecnologia. Talvez a inovação mais intrigante seja o motor de dobra (warp drive), o sistema de propulsão que envolve a Enterprise em uma bolha distorcida do espaço-tempo e move a nave a uma velocidade maior que a luz para singrar anos-luz em dias ou semanas. Em 1994, o físico teórico Miguel Alcubierre demonstrou que uma bolha assim é possível dentro da teoria da relatividade geral de Albert Einstein, mas que demandaria quantidades massivas de energia negativa, também conhecida como “matéria exótica” (M. Alcubierre Class. Quantum Grav. 11, L73; 1994). Isto não é conhecido em toda existência, exceto (possivelmente) em quantidades minúscula; e outros físicos especulam que o motor de Alcubierre, possivelmente, aniquilaria o sistema estelar de destino. O motor de dobra permanece imaginário.

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Contudo, outras aplicações da dobra de espaço-tempo na série já foram realizadas: o dispositivo de camuflagem que encobre espaço-naves da visão através da distorção da luz ao seu redor. Em 2006, os engenheiros elétricos David Smith e David Schurig construíram uma camuflagem “metamaterial” eletromagnética que escondia um objeto de micro-ondas, refratando-as para passar em volta dele, comportando-se como água fluindo em torno de um obstáculo (D. Schurig et alScience 314, 977–980; 2006). Agora, táticas divergentes similares são usadas para esconder pequenos objetos sob luz visível, como por exemplo pelo engenheiro elétrico Xingjie Ni e seus colegas, que desenvolveram um tipo de “capa camuflada de 80 nanômetros de espessura para realizar essa tarefa. (X. Ni et alScience 349,1310–1314; 2015).

AS TECNOLOGIAS DE STAR TREK: As tecnologias futuristas da série inspiraram inovações na vida real - algumas mais avançadas do que outras. Uma versão do motor de dobra que impulsiona a Enterprise mais rápida que a luz (1) foi proposto pelo físico Miguel Alcubierre em 1994 (2), mas permanece apenas conceitual. O tricorder de diagnóstico (3) foi atingido pelo SCOUT da empresa Scanadu (4), além do app que permite medir sinais vitais como pressão sanguínea.

O exótico teleporte da Enterprise, que instantaneamente desmaterializa e teleporta pessoas e coisas (inspirando o bordão “Beam me up”), foi supostamente concebido para economizar custos de executar repetidos pousos espaciais. O teleporte tem um análogo real no teletransporte quântico. Em 2015, por exemplo, o pesquisador de ótica quântica Hiroki Takesue e seus colegas aproveitaram emaranhamento quântico para mandar as propriedades de um fóton a mais de 100 quilômetros de fibra ótica (H. Takesue et alOptica 2, 832–835; 2015). Acima do nível atômico, entretanto, nós ainda estamos a uma boa distância de teleportar organismos ou objetos inteiros.

Outras tecnologias de Star trek anteciparam tendências modernas. O tricorder usado pelo oficial médico da TOS Leonard “Bones” McCoy (DeForest Kelley) para gerar diagnósticos inspirou dispositivos reais, como o SCOUT da companhia de tecnologia médica Scanadu em Moffet Field, California. Enquanto isso, monitores de atividade realizam monitoramento básico de saúde, gravando batimentos cardíacos, consumo de calorias e quantidade de sono.

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Inteligência artificial começou a emergir em tecnologias como reconhecimento de fala pelo programa-assistente-pessoal da Apple, SIRI, o carro auto-dirigível da Google e o robô Atlas, que se adapta a todo tipo de terreno, criado pelo US D.A.R.P.A. Todos são desenvolvimentos significativos que podem pavimentar o caminho para uma eventual aproximação do Tenente-Comandante Data (Brent Spiner), o androide sensciente que surgiu na série A Nova Geração no final dos anos 80.

O holodeck de Star Trek – o ambiente imersivo de realidade virtual no qual a tripulação da Enterprise-D (no artigo original, o autor menciona apenas uma Enterprise genérica, mas o holodeck só aparece a partir da Enterprise-D, na Nova Geração, em 1987 – Nota do amigo editor chatão) visita locais simulados – também está a anos de distâncias de surgir, mas enormes avanços na tecnologia já estão a caminho. O headset Oculus Rift, por exemplo, produz uma experiência visual e auditiva de realidade virtual, mas necessita estar conectado a um computador, falhando então em oferecer a mesma experiência de infinitude do holodeck.

Impressoras 3D, que sobrepõem sucessivas camadas de material para criar formas intrincadas, agora estão sendo adaptadas para manusear comida, talvez um passo em direção aos replicadores de comida da Enterprise. A Creative Machine Labs, então na Cornell University em Ithaca, Nova York, desenhou um modelo como parte do projeto Fab@Home, e a Natural Machines em Barcelona, Espanha, celebrou sua impressora Foodini por simplificar a criação de comidas com texturas e/ou camadas, como uma lasanha.

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Em geral, e talvez com maior relevância a longo prazo, Star Trek aumentou o entusiasmo pela exploração espacial e científica. Em 1975, fãs convenceram a NASA a nomear seu primeiro módulo orbital como Enterprise (o veículo foi descontinuado e nunca chegou ao espaço). E muitos aspirantes a cientistas encontraram na série uma grande inspiração.

Sua mensagem social nunca foi menos importante. A ética da Federação garantiu que Kirk, Picard, o lendário Capitão da série Nova Geração interpretado por Patrick Stewart, e seus sucessores ‘buscassem paz’ mesmo quando confrontados por aliens como os Klingons, um povo geneticamente predisposto à hostilidade. O episódio de fevereiro de 68, “A Private Little War”, uma alegoria sobre o Vietnã, foi um exemplo pontual. Roddenberry acreditava que a humanidade precisa aprender a se deleitar com as diferenças, mesmo com formas de vida alienígena, e preparar a si mesma para “conhecer a diversidade que certamente está lá fora”.

 

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O retrato de Star Trek da diversidade humana, e sua recusa em aceitar o conceito de excepcionalismo nacional, permanecem como conquistas pioneiras. Emergindo em uma época de exclusão racial na televisão americana, a tripulação de TOS incluía a tenente Nyota Uhura (Nichelle Nichols), o primeiro papel feminino afro-americano de real importância na TV americana, assim como o timoneiro pan-asiático Hikaru Sulu (George Takei), o navegador russo Pavel Chekov (Walter Koenig) – e claro, a estrela de Leonard Nimoy como o meio vulcano Spock. O imediato nativo-americano Chakotay (Robert Beltran) surgiu na série Star Trek: Voyager (1995-2001). O equilíbrio de gêneros pesou para o lado masculino até o advento da Capitã da Voyager Kathryn Janeway (Kate Mulgrew), tendo como engenheira-chefe B’Elanna Torres, interpretada pela atriz hispânica Roxann Dawson. Os impactos no mundo real abundam.

Cinquenta anos depois, como o nosso mundo se compara com o universo de Roddenberry? As mudanças na tecnologia são transformacionais; e embora a viagem interestelar ainda estão para se tornar realidade, o projeto da NASA para 2030, de mandar humanos para Marte, segue o sonho de “audaciosamente ir”. Os valores sociais progressistas de Star Trek que foram pioneiros na televisão agora são vastamente defendidos nos locais mais civilizados do mundo. Mas novos conflitos e instabilidades geopolíticas surgiram, a despeito dos esforços da Federação da vida real, a ONU. Em meio a essas mudanças e tensões, está franquia enormemente influente continua a carregar uma sutil, mas clara mensagem – nós podemos ser melhores do que nós somos.