A “Tentação” de Jesus

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1 Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. 2 E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome; 3 E, chegando-se a ele o tentador, disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães. 4 Ele, porém, respondendo, disse: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus (Deut. 8:3). 5 Então o diabo o transportou à cidade santa, e colocou-o sobre o pináculo do templo, 6 E disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo; porque está escrito: Que aos seus anjos dará ordens a teu respeito, E tomar-te-ão nas mãos, Para que nunca tropeces em alguma pedra (Salmos 90:11s). 7 Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus (Deut. 6:16). 8 Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. 9 E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares. 10 Então disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás (Deut.6:13). 11Então o diabo o deixou; e, eis que chegaram os anjos, e o serviam.

Mateus 4:1 a 11

Esclarecimentos iniciais

O estudo das letras sagradas não pode ser feito através de uma simples leitura que nos leve a seu entendimento literal. Para sua correta interpretação, mister que se busque a essência da mensagem do verbo divino, contida no simbolismo de seus versículos.

Nas culturas orientais, demônios seriam todas as criaturas tidas como místicas ou espirituais. Mas não necessariamente de natureza maligna, como nos casos das fadas, gnomos, etc.

Um demônio, ou ainda, daimon ou daemon tipicamente é descrito como um espírito do Mal, embora originalmente, para os gregos, pudesse também ser um ser benigno.

Satanás ou Satã (do hebraico adversário/acusador) é um termo originário da tradição judaico e geralmente aplicado à encarnação do Mal em religiões ditas monoteístas.

Demônios, satanás, diabos não existem. Deus, ao criá-los, estaria derrogando suas leis e contradizendo-se, uma vez que Lhe são atribuídos os fatores divinizadores sendo um deles a BONDADE. Deus não criaria seres para perturbar a vida dos homens.

Assim, ao refletirmos sobre esta narrativa de Mateus, encontramos pontos que fogem do nosso raciocínio e naturalmente questionamos:

Como Jesus, sendo um espírito de nível tão superior, pudesse vir a ser assediado por Satanás, alguém que, segundo se coloca, possui atributos que pessoas dão tanto valor e acham que ele é a suprema força do mal?

Há que se observar alguns pontos importantes:

1)    Jesus não foi tentado; Ele foi provado, porque o termo original, em hebraico, fala de provação e não em tentação.

2)    Satanás, pela situação como ele é colocado, é desprovido de qualquer coisa. Ele não tem nada.

3)    Jesus, sim; é o herdeiro legítimo de Deus. Senhor de todos os reinos do mundo. Devemos lembrar que quarenta dias antes, em seu batismo por João Batista (Mateus 3:13 a 17), uma voz dos céus dissera: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”.

4)    Existe aí uma situação, no mínimo, muito estranha. Uma incoerência mesmo. Como é que satanás ia oferecer esses reinos que já eram de Jesus, para que fosse por Ele adorado?

A questão aqui não era tanto a de Jesus tornar-se um rei. Deus já Lhe tinha prometido isso (Salmo 2:7 a 9; Gênesis 49:10), mas de como e quando. O Senhor prometeu o reinado ao Filho depois de seu sofrimento (Hebreus 2:9).

2 E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome. Jesus, na realidade, estava refletindo sobre a missão que iria abraçar. Após longo período de reflexões Ele teve fome do saber. Há aqui, uma questão básica: Como Jesus usará suas aptidões para cumprir a sua missão junto aos seus tutelados? (Mateus 5:17).

As reflexões do Mestre

Primeira reflexão: “3 Se tu és Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães”.

O objetivo de sua primeira reflexão foi a respeito de sua lealdade a Deus.

Os pães e as pedras alegoricamente simbolizam, respectivamente, as nossas necessidades materiais, tão importantes à nossa sobrevivência, e as nossas dificuldades em consegui-las.

Com o advento do Consolador Prometido (João, 14:15 a 17 e 26), foi-nos possível entender que essas dificuldades são decorrentes de nossa estrutura moral que construímos em nossas vidas passadas. Portanto, representam as vicissitudes pelas quais temos que passar num processo de resgate de nossos compromissos pretéritos a caminho de nossa ascensão espiritual.

Se Ele quisesse, poderia sim, transformar as pedras (nossas dificuldades) em pães (necessidades materiais); mas, aí Ele reflete sobre a racionalidade de nossa existência: “4 Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus (Deut. 8:3)”. Jesus, aqui, diz que confia em cada palavra de Deus.

A nossa “salvação” será pela justificação, ou seja, pelo uso correto de nosso livrearbítrio. Se assim não for, seremos transformados em seres sem vontade própria. Seremos robôs.

O homem vive do alimento material (pão), mas, também, do alimento espiritual: a palavra de Deus. E continua refletindo: “Se Eu fizer isto estarei indo contra a lei da natureza. Estarei indo contra a Lei de Causa e Efeito”.

Na qualidade de guia e modelo (Livro dos Espíritos, questão 621), a sua missão consiste em nos passar, através do exemplo, o caminho a ser percorrido na busca da perfeição para a qual fomos criados: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mateus 15:24)”.

Segunda reflexão: 6 E disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo; porque está escrito: Que aos seus anjos dará ordens a teu respeito, E tomar-te-ão nas mãos, Para que nunca tropeces em alguma pedra.

O objetivo da segunda reflexão diz respeito da confiança. De sua fé em Deus: Você confia em Deus, não confia? Vamos ver quanto você confia nEle. Você confia nEle o bastante para atirar-se deste pináculo?

7 Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus. Jesus reflete que não precisa fazer aquilo para provar absolutamente nada e nem para ter certeza de que Ele era quem era.

A confiança alicerça-se na fé. Ter fé é acreditar. É ter firmeza na execução daquilo que se propõe fazer. A fé nos leva a vencer dificuldades enormes (Mateus 17:19 a 21).

Com a firmeza da fé podemos realizar além da nossa imaginação (João 10:34 e 14:12).

Terceira reflexão: 8 Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. 9 E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.

O objetivo da terceira reflexão foi o mais crucial, pois foi um teste da missão de Jesus ou, mais precisamente, um teste da determinação de Jesus de concluir Sua missão independentemente do custo.

Fala do poder transitório. Tentem imaginar a glória de todos os reinos do mundo, todos os impérios do presente e do passado: o grande império romano, o grego, o persa, o babilônico, o assírio, o egípcio, o reino de Davi e Salomão – sem mencionar reinos como Bitínia e Síria, mais todos os reinos em territórios inexplorados! Tudo isto reluzindo diante dos olhos de Jesus.

O que adiantava possuir todos os reinos do mundo se sua missão era espiritual?

O que Jesus teve no deserto, foi um momento de reflexão. Era o momento de tomar uma decisão. Ou Ele ficaria com os reinos do mundo e seria realmente um grande reino, porém, este não era seu objetivo, tanto é que Ele, mais tarde, declara: “Meu reino não é deste mundo” (João 18:36).

Em outra oportunidade, na hora que em Lhe perguntaram se era justo pagar o imposto do imperador, Ele reafirma a separação do que é material do que é espiritual: “Daí, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21).

10 Então disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás (Deut.6:13). Oh! pensamento inferior, vai-te, afasta-te de mim, porque está escrito: Ninguém pode servir a Deus e a Mamom, que era o deus material dos Fenícios.

A partir destas reflexões Jesus sabe que chegou o momento de assumir o seu Reino Espiritual, então Ele sobe para a Galiléia e inicia o seu ministério.

A grande lição que esta passagem nos deixa, é que na luta do cristão pela reforma íntima, o principal campo de batalha é a provação, motivada pelas nossas tendências instintivas construídas nas experiências pretéritas.

Jesus, seja sempre conosco.

Marcos José Ferreira da Cruz Machado
Belo Horizonte (MG)
MAR/2009