Do corpo e do espírito na organização religiosa

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Como e porque o Espiritismo é religião – O problema do interior e do exterior – Os três aspectos da doutrina

A religião espírita apresenta aspectos inteiramente diversos dos que estamos habituados a ver nas demais religiões. É por isso que, insistentemente, deparamo-nos com a afirmação de que o Espiritismo não é religião. Basta, porém, perguntarmos quais os elementos que realmente caracterizam a religião, para verificarmos que a doutrina espírita os contém em profundidade, e não apenas em superfície, como acontece com numerosas seitas. “O Espiritismo – escreve-nos um leitor – não possui nenhum sistema litúrgico, não tem culto e não tem organização sacerdotal. Ora, sendo assim, como pode ele considerar-se religião?” A resposta é simples e pode ser dada por outra pergunta: “O que é liturgia, o que é culto, o que é sacerdócio?” Bem analisadas essas coisas e bem estudado o processo das práticas espíritas, podemos responder que o Espiritismo possui todos esses elementos, embora de maneira natural e não artificial. Mas, se formos um pouco mais longe, perguntando o que é religião, veremos que o Espiritismo está certo em não basear a sua ação religiosa nos elementos exteriores que usualmente definem os sistemas religiosos. A religião, com o tudo no mundo, constitui-se de pelo menos dois elementos: O espírito e o corpo. O espírito da religião é o sentimento religioso, esse poder íntimo e profundo que eleva o homem a Deus e o liga aos seus semelhantes. O corpo da religião é a sua forma de exteriorização, de manifestação social. É por isso que Bergson dividia a religião-estática, formada pelos convencionalismos rígidos, da religião-dinâmica, que nasce do íntimo e não se prende a formas externas. Como religião, o Espiritismo também possui os dois elementos: o espírito e o corpo. Mas o corpo da religião espírita é tão diferente do corpo das demais religiões como o de um atleta se diferencia do corpo de um nababo oriental. A religião espírita, voltada muito mais para o interior do que para o exterior, reduziu ao mínimo a sua forma de manifestação externa. Seu corpo é simples, natural e puro, não se escondendo jamais sob roupagens pesadas e adornos em profusão. O culto espírita se reduz à prece e à concentração mental, e o sacerdócio espírita não se apresenta como um sistema complicado de hierarquia eclesiástica, mas como um voluntariado espiritual, a serviço apenas da realização doutrinária. A religião espírita consiste na crença em Deus e na sua veneração natural, íntima e profunda; na aceitação do Cristo como o redentor do mundo e seu diretor espiritual; na aceitação da existência dos espíritos superiores, que velam pelo nosso destino na Terra; na crença na sobrevivência e imortalidade do ser humano como espírito e na possibilidade de intercomunicação de vivos e “mortos”; na aceitação do princípio de pluralidade dos mundos habitados e do princípio da reencarnação, bem como da lei de causa e efeito, assim definida por Jesus: “Aquele que com ferro fere, como ferro será ferido.” No Espiritismo não há sacramentos, porque os sacramentos são considerados como fórmulas convencionais. Não se pode, portanto, falar em casamentos e batizados espíritas. Mas os espíritas respeitam os sacramentos de todas as religiões, embora não possam submeter-se à prática dos mesmos, por uma questão de consciência, pois o sacramento só tem eficiência para o que nele crê. O casamento, para o espírita, na vida social, é um ato civil, que deve reger-se pelas leis vigentes em cada país. No sentido espiritual, é um compromisso de natureza profunda, que não pode ser afetado por nenhum ato convencional. O batismo é aquele batismo do fogo e do espírito, que encontramos nos Evangelhos, ou seja, a iniciação nos conhecimentos espirituais, que atira o homem contra as exigências do mundo e põe à prova a sua natureza espiritual. Por tudo isso, como vemos, a religião espírita se diferencia das demais, mas nem por isso deixa de ser religião. Negar ao Espiritismo o seu caráter religioso é não compreendê-lo ou simplesmente combatê-lo. Como pode deixar de ser religiosa uma doutrina que se assenta na existência, transcendência e onipotência de Deus, e trata do destino da alma após a morte? Como negar-se o sentido religioso a uma doutrina que procura a salvação dos homens, não por meio de profissões de fé ou através de formas sacramentais, mas da sua espiritualização constante, da sua libertação das exigências materiais, da sua emancipação espiritual?

(PIRES, J. H. O infinito e o finito. São Bernardo do Campo, SP: Correio Fraterno, p. 98-100).