A Bíblia é Homofóbica?

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1 Coríntios 6:10

O versículo abaixo descrito por Paulo de Tarso elenca nitidamente  inúmeras condutas imorais e de cunho religioso, incluindo os termos efeminados (malakoi) e  sodomitas (arsenokoitai).O espirito da tradução bíblica nunca deve ter interpretação diversa do sentido espiritual daquele contado pelos narradores originais da época. Ocorre que interpretações  tendenciosas ,anacrônicas ao pé da letra visando somente o materialismo que melhor convém, vem causando ódio e descrença pelo livro sagrado dos cristãos ao longo dos milênios, deturbando com isso o cristianismo primitivo da época de Jesus e de seus antecessores.

“Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados (malakoi), nem os sodomitas (arsenokoitai), nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.”

 Segundo o Blog  Teologia Inclusiva esta passagem, quando Paulo, para alertá-los de seus erros, lembra aos cristãos de Corinto da Lei Judaica, tem sido alvo de intensas discussões quanto a sua tradução.

As palavras malakoi e arsenokoitai ao longo dos séculos têm sido traduzidas de forma bem distintas.

Quanto a palavra malakoi (que literalmente significa “mole”, “macio”) já houve versões bíblicas que a traduziram como “depravados”, “pervertidos”, “efeminados”, “efebos”, “meninos prostitutos” e algumas versões modernas chegaram até mesmo a falar em “homossexuais”. Entretanto, até a Reforma no século XVI pensava-se que tal palavra significasse “masturbadores”. Sabe-se, porém, que para além de seu sentido literal de “mole” ou “macio”, tal termo, quando usado para adjetivar pessoas, pode também ser entendido como “lasso”, “irrefreável”, “devasso” ou mesmo “efeminado”. E é a partir dessa última tradução que se tem entendido por parte dos religiosos tradicionais que, portanto, existiria no texto uma condenação aos homossexuais. Segundo essa concepção um homem lasso, promíscuo e efeminado só poderia se tratar de um homossexual.

Não obstante, há uma séria contra-argumentação a esse entendimento. Uma grande, e hoje crescente, parte dos estudiosos tem questionado essa interpretação, mostrando que a palavra malakoi, mesmo quando traduzida como “efeminado” jamais pode ser entendida como uma referência a homossexuais. Para tal intento, mostram que tal tradução é ambígua uma vez que o termo “efeminado” filologicamente sempre significou, para além de “pusilânime”, também “mulherengo”, e é esse o sentido que a palavra original tinha nos tempos de Paulo – o que, de fato, é coerente com outras passagens bíblicas que condenam os promíscuos e devassos, como Apocalipse 21:8 e 22:15. Tais críticos lembram também que a palavra “efeminado” só adquiriu conotação de “homossexual” na Modernidade, de modo que inserir essa tradução nos escritos de Paulo seria um gritante equívoco e algo profundamente descabido. No intuito de comprovar tal entendimento, acrescentam que até a era moderna, nunca, em nenhum texto, em nenhuma época sequer a palavra malakoi significou “homossexual” ou conceito semelhante, e desafiam a quem possa mostrar o contrário.

Já em relação à palavra arsenokoitai a controvérsia é ainda maior. Uma vez que ela, em um intervalo de três séculos, somente aparece em dois escritos de Paulo e, posteriormente, nos Oráculos Proféticos (Sibylline Oracles) e em mais nenhuma outra literatura na história – e em ambos  a palavra se encontra dentro de uma lista, de modo a seu significado não poder ser alcançado a partir de um contexto – fica impossível determinar seu significado literal. Há, porém, um certo consenso que esta palavra se trata de um neologismo criado por Paulo, que teria juntado as palavras arsen, que significa “homem” e koiten, que significa “cama”. Vale notar que para alguns religiosos – como os tradutores da NVI e da Bíblia da Linguagem de Hoje – tal dado já seria suficiente para levá-los a crer que tal palavra se referiria, sim, à “homossexual”, uma vez que o pecado que um homem pode fazer na cama seria, em seus pontos de vista, quase certamente, um ato homossexual. Tal entendimento – acusado de simplista e homofóbico pelos liberais – com efeito, não pareceu  dar conta de desvendar a palavra em questão para a maioria dos exegetas e acadêmicos.

Diante da impossibilidade de encontrar o significado literal da palavra arsenokoitai, uma ampla gama de estudos acadêmicos foi feita ao longo do século XX no intuito de compreender de fato o termo e evitar sua tradução de modo precipitado e controverso. É, então, que pelo método histórico-crítico pôde-se, enfim, compreender o que tem sido amplamente aceito como o mais provável sentido do neologismo paulino.

Arsenokoitai remete ao conceito de prostituição cultual muitíssimo comum no Antigo Testamento, quando meninos eram vendidos como kadeshim, ou “prostitutos cultuais”, para os templos pagãos como os de Dionísio, Baal e Diana, ou mesmo homens livres se faziam sacerdotes sexuais para se dedicarem a esses templos de freqüente idolatria orgiástica. A exatidão dessa teoria se provaria uma vez que a Septuaginta, que eram as escrituras sagradas que Paulo lia à sua época, usa os exatos mesmos termos que o apóstolo usou em Levítico 18:22: Como homem (arsenos), não te deitarás (koiten), como mulher…(Kai meta arsenos ou koimethese koiten…), e o texto se finaliza afirmando que tal ato seria toevah, uma palavra que, como vimos, no hebraico é sempre usada num contexto de ritual religioso, de impureza no sentido religioso, o que é praticamente um consenso entre os hermenêutas veterotestamentários.