Por que é impossível convencer um petista?

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Em uma das aulas que dou anualmente para os alunos da Medicina USP, discuto dois autores importantes em psicologia moral.

Ambos têm visões muito influentes e, ao mesmo tempo, muito diferentes sobre como fazemos julgamentos morais.

O momento político por que passamos no Brasil, hoje, oferece ótimos exemplos para entender estes autores.

Julgamento Racional

Lawrence Kohlberg entendia o julgamento moral como um pensamento racional.

Ele conduziu seus estudos por meio de dilemas morais, situações em que temos de escolher entre opções difíceis.

Por exemplo, um homem deve roubar um remédio caríssimo, que é a única esperança de salvar sua esposa doente, uma vez que esgotou todas as possibilidades de obtê-lo por meios legais? Ou o correto é deixar que ela morra para não cometer um crime?

Kohlberg queria entender o porquê, as razões, que levavam as pessoas a julgar um fato como moralmente certo ou errado. E classificou as formas dessas racionalizações em três estágios do desenvolvimento moral.

Crianças pequenas, normalmente, vivem em um estágio chamado pré-convencional, em que o julgamento moral depende apenas da aprovação pelos adultos. Bom e certo é aquilo que os pais aprovam. Mau é o que resulta em bronca ou castigo.

Com a idade e o amadurecimento as pessoas chegam a um estágio convencional em que a moral é ditada por leis. Bom e certo é seguir o código de conduta, da família ou da sociedade. Mau é desobedecer esse código.

Segundo Kohlberg, a maioria das pessoas chega apenas ao estágio convencional. Mas há mais um, o estágio pós-convencional, que apenas uma pequena parcela da população atingiria.

Nesse estágio, há uma distinção entre lei e moral. Passa a ser possível identificar o moralmente certo através princípios éticos abstratos que nem sempre concordam com a lei.

Por exemplo, tomemos a nomeação do ex-presidente Lula para ministro do governo Dilma.

A nomeação de um ministro é um ato discricionário da presidente. Ou seja, ela tem liberdade para escolher conforme sua conveniência.

A menos que fique provado que a nomeação se deu para outra finalidade, como a mudança de foro das investigações contra Lula, ela está respaldada na lei. E provar intenção é quase sempre impossível.

Portanto, salvo prova em contrário, a nomeação é legal.

Mas é claramente imoral.

Como outro exemplo, tomemos a atitude do juiz Sérgio Moro ao tornar pública as gravações de conversas de Lula.

Há uma grande polêmica sobre a legalidade desse ato. Especialmente a respeito da gravação que envolve a presidente da República. Juristas vão debater se o ato foi legal ou não.

Se foi legal, foi só um ato comum que, pelo conteúdo disponibilizado, ganhou grande relevância.

Mas, se foi ilegal, aí sim, terá sido um ato moral.

Se o juiz Moro se arriscou, em atitude que possa vir a ser interpretada como ilegal, para tornar público um flagrante de conspiração e obstrução da Justiça entre presidente e ministro, este é um ato moral.

Ato nobre em que um indivíduo aceita riscos pessoais para defender um ideal de verdade e justiça.

Esses são bons exemplos dos estágios convencional e pós-convencional de Kohlberg. Nem sempre o que é legal coincide com que é moral, segundo os princípios éticos que deveriam nortear nossos mais nobres julgamentos.

Julgamento Emocional

A teoria sobre psicologia moral de Jonathan Haidt bate de frente com a de Kohlberg.

Segundo Haidt, não importam as razões que usamos para justificar nossos julgamentos morais. Eles acontecem, simplesmente, como uma resposta emocional.

Em seus estudos, Haidt abandonou os dilemas que requeriam explicações e empregou vinhetas. Pequenas descrições de situações e atitudes, desenhadas para elicitar uma resposta moral. Por exemplo, relatos que envolvem incesto, desrespeito a símbolos nacionais, inobservância a ritos religiosos etc.

Em todos esses relatos, muitos indivíduos apresentavam fortes reações, com julgamentos morais claros, mesmo sendo incapazes de justificar, racionalmente, os motivos para tais reações.

Por essa teoria, nós primeiro julgamos, com base em disposições emocionais, intuitivas, e depois elaboramos alguma racionalização que tente explicar o julgamento.

A razão, assim, seria uma espécie de assessora de imprensa, que tem de se virar para justificar as decisões irracionais que saem do gabinete.

E isso explica por que as discussões sobre alguns temas, como política, nunca levam a nada.

Para fazer um julgamento sobre alguma questão política você usará uma intuição moral. Depois, com base nesta intuição, oferecerá um argumento para outra pessoa.

Esta, por sua vez, não reagirá racionalmente ao seu argumento, mas fará um julgamento emocional. E é com base nesse julgamento, não no seu argumento, que oferecerá um contra-argumento.

Qualquer um que já tenha debatido política no Facebook sabe muito como isso funciona.

E só assim, mesmo, para explicar algumas coisas.

Por exemplo, como explicar que militantes do PT, que saíram às ruas pedindo o impeachment de FHC, que foram instrumentais no impeachment de Collor, agora defendam com unhas e dentes que impeachment é golpe?

Como explicar que tantos simpatizantes do governo, de esquerda, usem o mesmo argumento dos antigos malufistas, de direita? O argumento, claro, é o de que a corrupção deve ser perdoada em nome de um bem maior, também conhecido por “rouba, mas faz”.

Como explicar que os revolucionários de outrora são os reacionários de hoje, lutando para manter o status quo no poder e paralisar os movimentos legítimos das ruas?

Ao mesmo tempo, como explicar que quem defende a voz das ruas hoje são os mesmos que a ignoravam antes?

Fica óbvio que os argumentos estão a serviço das emoções, e não o contrário.

Haidt deve estar certo. Não há razão que fale ao coração. E não há argumento que convença um petista.