057.Robin – Year One (2001)

asanoturnaBG_img01_09092009 A trajetória  do Menino Prodígio

Por Nano Souza

Batman, sem dúvida, é um dos personagens mais conhecidos do mundo, afinal foi o “segundo grande” a aparecer nos quadrinhos de super-herói. Mas tão conhecido como o Homem-Morcego é o seu parceiro mirim. Pergunte a qualquer pessoa que não lê histórias em quadrinhos: “Quem é o Robin?”. A maioria sabe, seja graças à bizarra série de TV dos anos 1960, seja aos desenhos animados, principalmente a animação Superamigos, onde contracenava com Batman e outros heróis. Robin é uma figura mundialmente reconhecida.

O PRIMEIRO SIDEKICK

Ele é mais conhecido entre os “civis” (como os nerds chamam as pessoas que não leem quadrinhos) do que muito super-herói que sempre teve revista própria. Isso se deve ao fato de que nos primeiros 30 anos de combate ao crime do Batman, Robin foi seu parceiro inseparável. Só nos anos 1970 que as duas figuras foram se distanciando, e Robin apenas iria encontrar seu ninho no final dessa década em outro time, Os Novos Titãs.

Robin nasceu exatamente um ano depois do Batman, em abril de 1940, na mesma revista Detective Comics. Seu nome era Dick Grayson, um órfão que perdeu seus pais quando eles foram assassinados por um gângster tentando cobrar “proteção” de um circo. Bruce Wayne se identificou imediatamente com a tragédia do menino, já que passara pela mesma coisa quando criança, e decidiu adotá-lo.

asanoturnaBG_img02_09092009Robin foi o primeiro sidekick (parceiro mirim). A ideia dos editores da revista é que Batman era uma figura sombria demais para os leitores se identificarem, e naquela época a totalidade do público era de crianças. Então, imaginem como seria acompanhar as aventuras do seu ídolo, ajudá-lo no combate ao crime? Hoje pode parecer ridículo um vigilante encapuzado colocar em risco a vida de uma criança ao tê-la como parceiro, mas na época foi um estrondoso sucesso. Dick Grayson tinha exatamente a idade da maioria dos leitores do Batman e foi muito bem aceito quando apareceu.

Tanto é que dali por diante vários personagens adultos passaram a ter o seu próprio sidekick – sendo o Superman um dos poucos heróis da Era de Ouro que não teve o seu. Mais de um editor de quadrinhos do período explicaram que as vendas mostravam que a inclusão de um parceiro mirim realmente aumentava o interesse dos leitores pelas aventuras destes heróis.

Vá explicar isso para o Dr. Fredrich Wertham. O psicólogo autor do polêmico livro A Sedução dos Inocentes achava que os parceiros mirins eram uma apologia ao homossexualismo. Afinal, poderia parecer estranho que um homem adulto, como Batman, tivesse como melhor amigo uma criança.

Mas o que Wertham nunca compreendeu é que a maioria dos leitores de Batman eram crianças que viam a relação de Bruce Wayne / Dick Grayson como uma relação ora de pai e filho, ora de um irmão mais novo com um irmão mais velho. A Batcaverna era um verdadeiro “clube do Bolinha”, onde meninas não eram permitidas, simplesmente porque a sexualidade realmente assusta as crianças menores. As meninas têm algo de caótico e misterioso para os garotos com menos de 12 anos. Não era à toa que o maior interesse romântico do Batman por muito tempo fosse a Mulher-Gato, uma ladra, uma criminosa, que representava ao mesmo tempo o perigo e a sedução que as mulheres ofereciam, como se o sexo fosse algo proibido.

A relação de Bruce Wayne e Dick Grayson era tão inocente, que os autores dos anos 1940 e 50 não viam problema nenhum deles dormirem no mesmo quarto, numa época em que pais e filhos podiam dormir na mesma cama sem as implicações que há, por exemplo, nos dias de hoje.

Da mesma forma, até os anos 50, as crianças trabalhavam desde muito cedo. A adolescência é algo que só se estabeleceu no final dos anos 50, antes disso, as crianças tinham que amadurecer logo e arrumarem emprego para ajudar suas famílias. Por isso, Dick Grayson combater o crime tão jovem não era algo tão chocante e inacreditável em 1940, quando nos lembramos dos garotos que mentiam sobre sua idade para se alistar e combater na Segunda Guerra Mundial.

Antes mesmo de ser adotado por Bruce Wayne, Dick Grayson já trabalhava com a família, afinal era um dos Graysons Voadores, exímios trapezistas. O fato inclusive ajudou a explicar para os leitores porque com tão pouco tempo de treinamento Robin já podia combater o crime, afinal era um malabarista e ginasta até melhor do que o Batman, com a tenra idade de 12 anos.

Quando Dick surgiu, os fãs gostaram dele durante os anos 1940 e 50. O fato de ele ser às vezes retratado como uma criança, outras como um “adulto em miniatura”, combinava com aquilo que os leitores queriam ver. No entanto, nos anos 60, com o surgimento da rebeldia juvenil, Dick passou a ser visto como uma figura conservadora para muitos jovens.

asanoturnaBG_img03_09092009Os novos leitores de quadrinhos então torciam o nariz para esse estranho adolescente, sempre obediente e bonzinho, bem diferente do Homem-Aranha e do Tocha Humana, personagens adolescentes da iniciante Marvel Comics, e que tinham como principal mérito, apesar de serem jovens, não serem parceiros mirins de seus heróis, mas protagonistas das próprias séries. Eram essas as novas aspirações dos jovens.

No entanto, os anos 60 também trouxeram o que seria a futura tábua de salvação de Dick Grayson: a Turma Titã. Como a revista da Liga da Justiça, reunindo os maiores heróis da DC, era um sucesso, os editores logo tiveram a ideia de reunir os sidekicks em uma equipe também. Assim Robin, Kid Flash, Aqualad e Moça-Maravilha juntam forças, num grupo que em pouco tempo ganharia também o reforço de Ricardito, protegido do Arqueiro Verde.

A série não foi exatamente um sucesso, era bimestral e foi interrompida várias vezes, até ser definitivamente cancelada em 1976. Eram péssimos tempos para Dick Grayson. A série de TV do Batman nos anos 60 havia contribuído para uma visão afeminada e estereotipada do personagem, onde ele usava meia-calça e a única coisa que fazia de útil era bater a mão fechada na outra aberta sempre com a expressão: “Santo…” alguma coisa.

asanoturnaBG_img04_09092009Tentando reabilitar a imagem do Batman nos quadrinhos no começo dos anos 70, o escritor Dennis O´Neil, que percebia a rejeição da figura do Robin pelos leitores, colocou Dick Grayson pra escanteio, e ele foi aparecendo cada vez menos nas histórias do Homem-Morcego. A explicação é que Robin entrara para a Universidade em outra cidade, Nova York, e por isso, só visitava Gotham City nos finais de semana, e olhe lá.

ASA NOTURNA
A salvação veio em 1980, quando o escritor Marv Wolfman, da mesma geração dos anos 60 que não gostava da forma como os heróis adolescentes da DC eram retratados nos gibis, propôs a reformulação da Turma Titã, agora como a equipe dos Novos Titãs. Eles ainda eram adolescentes, porém a equipe não era mais composta de sidekicks dos heróis, mas de ex-sidekicks, porque Robin, Moça-Maravilha e Kid Flash haviam crescido. Juntos a eles se juntaram os heróis Cyborg, Ravena, Estelar e Mutano.

Auxiliado pelo belo e detalhado traço de George Pérez, Wolfman fez história com Os Novos Titãs, transformando a revista na mais vendida da DC Comics nos anos 80. E no comando de tudo estava Dick Grayson. Inicialmente como Robin, Wolfman começou a mostrar alguma rebeldia no personagem, e um conturbado conflito de gerações com Batman. Como muitos adolescentes, Dick Grayson começou a discutir com o seu “pai”, discordar dos seus métodos, até chegar a ponto de querer cortar todos os vínculos e realmente abandonar o ninho (afinal Robin é o nome de um pássaro).

asanoturnaBG_img05_09092009 (1)Em 1983, durante a clássica história O Contrato de Judas, Dick Grayson finalmente adota uma nova identidade super-heróica, o Asa Noturna. A DC já tivera um personagem chamado assim. Na verdade, essa havia sido a identidade secreta que o Superman adotava quando agia na cidade engarrafada de Kandor, incógnito. Como Kandor havia se “mudado para outra dimensão”, e o Asa Noturna aposentado, Dick Grayson pegou o nome.

Desta forma, Dick Grayson seguiu no comando dos Titãs até os anos 90, vivendo um tórrido romance com a colega de equipe Koriander, a alienígena Estelar. Durante os anos 60 os autores tentaram estabelecer um romance de Robin com Barbara Gordon, a Batgirl, mas a ideia não foi muito desenvolvida.

Dick e Estelar acabaram saindo da equipe após uma conturbada cerimônia de casamento que não deu certo. A alienígena decidiu deixar a Terra por uns tempos, e Dick Grayson acabou voltando a Gotham City, numa época em que Batman não era mais Bruce Wayne, mas um usurpador chamado Jean-Paul Valley, durante a saga A Queda do Morcego.

Como os métodos violentos de Valley transformaram Gotham City num caos, Bruce Wayne chama Dick Grayson de volta para ajudá-lo a desbancar o impostor. Percebendo que Dick ficara magoado por quando ele, Bruce, ter tido a coluna quebrada por Bane, não ter escolhido o ex-pupilo para ser seu substituto, Wayne decide se afastar por um tempo para terminar de se recuperar e pede que o ex-Robin assuma sua identidade.

A saga Filho Pródigo foi a primeira vez que Dick Grayson assumiu a identidade do Batman, e atuou durante algum tempo com Tim Drake, o terceiro Robin. Com Bruce Wayne voltando à ativa, os dois tiveram uma conversa e finalmente fizeram as pazes, tendo um relacionamento de pai e filho que se manteve desde então, com Bruce inclusive adotando Grayson legalmente, transformando-o em seu herdeiro.

asanoturnaBG_img06_09092009Com o sucesso de Filho Pródigo, a DC Comics percebeu que já era hora de ver se Dick Grayson poderia ser o protagonista de sua própria revista. Inicialmente, o escritor Chuck Dixon lançou uma minissérie onde Asa Noturna ajuda a trazer Alfred de volta para Gotham City. As boas vendas mostraram que, sim, os leitores queriam um titulo mensal do Asa Noturna.

O herói então se muda para uma cidade vizinha a Gotham City, chamada Bludhaven, tão corrupta quanto Gotham. Ele e Batman decidem que ele deve se infiltrar no departamento de polícia para conseguir provas da corrupção policial no lugar. Desta forma, Dick Grayson se torna tira durante o dia e vigilante durante a noite.

Chuck Dixon permaneceu à frente da revista por 74 edições, até Dick Grayson conseguir derrubar o corrupto capitão da polícia de Bludhaven. No entanto, seu maior adversário e rei do crime na cidade, o Arrasa-Quarteirão, continuava no poder. A escritora Devin Grayson (sim, o sobrenome é o mesmo do personagem) criou um ciclo de histórias que os fãs chamam de A Queda de Grayson, que mostra o herói se envolvendo com uma vigilante justiceira e se desligando da polícia como consequência disso.

asanoturnaBG_img07_09092009O ponto final de A Queda de Grayson foi a destruição da própria Bludhaven, durante o evento conhecido como Crise Infinita. Esse mesmo evento provou a força do personagem entre os fãs: Dick Grayson estava marcado para morrer pelo todo poderoso editor da DC, Dan Didio. Como todo megaevento, Crise Infinita exigia “mortes de personagens importantes”, e também os autores tinham pensado numa morte que fosse capaz de balançar o fleumático Batman e o mandassem para um exílio autoimposto de um ano, tornando-o mais sentimental depois na volta.

Dick Grayson deveria morrer no número 7 e final de Crise Infinita, assassinado por Alexander Luthor. Desiludido, Bruce Wayne partiria em exílio com Tim Drake, e adotaria o rapaz após essa viagem, para tentar preencher o vazio deixado por Dick.

Por isso, Devin Grayson estava fazendo uma política de “destruir” o personagem nos últimos números da revista do Asa Noturna, fechando todas as pontas soltas em Bludhaven, mas também levando o personagem a uma crise e uma redefinição de valores. O arco até termina com um pedido de casamento de Dick para Barbara Gordon! Era fácil fazer essa promessa, porque o personagem iria tragicamente morrer na Crise. Para muitos autores, como Judd Winick, “Dick Grayson não tinha mais utilidade para o Universo DC, já que não era o Batman, nem era o Robin” (palavras dele).

A história vazou e os fãs protestaram tanto em e-mails e nas convenções de quadrinhos que Dan Didio pediu a Geoff Johns que mudasse o final de Crise Infinita. Dick Grayson é mortalmente ferido por Alexander Luthor, mas sobrevive. Ainda assim, Bruce Wayne parte em exílio e adota Tim Drake, mas desta vez acompanhados por Dick. que, a propósito, não casou com Barbara Gordon.

asanoturnaBG_img08_09092009EU SOU O BATMAN
Depois da Crise Infinita, o personagem realmente ficou um pouco deslocado no Universo DC, como Judd Winick previra. Sua maior importância era como líder da equipe de vigilantes chamada de Renegados, um grupo conhecido por às vezes passar por cima da ética e da lei para combater o crime e a injustiça, inclusive se metendo em assuntos políticos de outros países.

Já em sua revista, Asa Noturna teve uma perda de rumo: com Bludhaven destruída, Dick se muda novamente para Nova York, onde residiu na época dos Novos Titãs. Lá arruma empregos estranhos como modelo e instrutor de ginástica. Percebe-se, no primeiro arco escrito por Bruce Jones, que a DC realmente iria fazer de Jason Todd o novo Asa Noturna, transformando-o numa espécie de “Justiceiro” do Universo DC após a morte de Dick em Crise Infinita.

A série vendeu tão mal que após sete números Bruce Jones estava fora, e foi chamado Marv Wolfman, praticamente o pai da versão “Asa Noturna” de Dick Grayson, mas nem ele conseguiu reanimar muito os fãs da série.

Enquanto isso, o escritor Grant Morrison assumia a revista principal do Batman e construiu uma saga onde Bruce Wayne é dado como morto e começa uma batalha por sua sucessão. Nas palavras do autor o que ele queria era “mexer com as coisas” e quebrar a monotonia da revista, fazendo os fãs novamente se perguntarem o que iria acontecer em seguida.

Durante a saga Descanse em Paz, Dick Grayson é chamado novamente para Gotham City, para ajudar Bruce Wayne a lidar com as pessoas que o querem destruir. Com o desaparecimento de Wayne, Gotham City entra no caos, e embora seus amigos insistam, Dick se recusa a assumir o manto do pai adotivo.

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No entanto, outros o fazem, como o bem-intencionado, mas não totalmente preparado, Tim Drake, e o psicótico Jason Todd, o ex-2º Robin. Desta batalha dos Robins pelo manto do morcego, Dick percebe que Gotham City precisa da figura do Batman para que os criminosos saibam que ele é “imortal” e que ainda devem temer a noite.

Dick derrota Jason e veste a roupa do Batman. Com isso, a revista do Asa Noturna foi cancelada, embora o nome esteja sendo novamente reaproveitado por um personagem kryptoniano, completando um ciclo. Já Dick Grayson estrela duas revistas, a tradicional Batman e a nova série Batman & Robin, ao lado de Damian, o filho de Bruce Wayne e o mais novo Robin.

Nada mal para um personagem que, por pouco, não abotoou o paletó de madeira há poucos anos em Crise Infinita. De parceiro mirim a rebelde adolescente, de guardião de uma cidade a herói sem rumo, Dick Grayson agora é o Batman. Pelo menos por enquanto.

Nano Souza é escritor, jornalista e fã de carteirinha do universo do Homem-Morcego.

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Sinopse : Robin Ano Um

Em sua cruzada contra o crime, Bruce Wayne conhece um jovem cujos pais também foram assassinados. Munido de uma profunda compaixão, Bruce adota o menino e começa a treiná-lo como um combatente do crime. Dick Grayson demonstra ter um grande potencial e habilidade. No entanto, também surgem muitas dúvidas. Alfred teme que outro menino tenha sua infância roubada nessa luta, e o Comissário Gordon desaprova totalmente este “parceiro” de Batman, o comissário acha que Dick ainda é muito jovem para ser colocado neste tipo de risco. Acompanhe o começo da história de Dick Grayson como Robin, como os laços inabaláveis de Batman e Robin foram criados.Nota - 03