O PRISIONEIRO – O ideal libertário no entretenimento – Por Daniel Fontana

The Prisoner

EU NÃO SOU UM NÚMERO! EU SOU UM HOMEM LIVRE! Gritava o angustiado Número 6, protagonista deO Prisioneiro, ao final da abertura da maioria dos episódios. Se a frase do personagem e o nome da série parecem familiares, talvez você conheça um pouco, ou muito, de Iron Maiden, cuja canção “The Prisoner” é uma homenagem explícita à série. A banda ainda revisitou esse universo com “Back in the Village”. Como se trata de um seriado britânico, portanto conterrâneo dos músicos, a primeira impressão de quem não conhece é de que, talvez, seja algo que só teve influência por aquelas bandas. Longe disso! Entre outras coisas, O Prisioneiro foi parodiado em um episódio da décima segunda temporada de Os Simpsons, contando até mesmo com a dublagem do ator principal. Há alguns anos, circulou a ideia de um remake Hollywoodiano e o diretor cotado foi o conceituado, e admirador assumido, Christopher Nolan, da trilogia O Cavaleiro das Trevas. O rei dos quadrinhos, Jack Kirby, chegou a desenhar uma história ambientada naquele mundo. Em 2009, o canal norte-americano AMC produziu uma nova versão que era uma mini-série de seis episódios, com Jim Caviezel e Ian McKellen nos papéis principais. Até hoje, é matéria em universidades no campo da semiótica e abordado em livros de filosofia. Tudo isso indica um peso considerável na cultura pop universal e além. Então O Prisioneiro poderia ser considerado como a série desconhecida mais influente de todos os tempos? Como algo feito para TV, mídia com menos recursos e considerada menor à época, consegue esse feito? A história por trás de tudo se confunde com a trajetória de Patrick McGoohan, o homem que deu corpo e alma ao Número 6.

Patrick McGoohan

Patrick McGoohan

McGoohan nasceu em 19 de março de 1928, nos Eua, mais precisamente em Long Island, New York. Filho de imigrantes irlandeses, seu pai não demorou a decidir instalar a família na terra natal. Sete anos depois vão para Sheffield, na Inglaterra. A forte educação católica fez com que o jovem Patrick desenvolvesse a ambição de tornar-se padre, mas passados alguns anos essa ideia deu lugar a um interesse pelo teatro. Em 1944 ele deixa a escola e em 47, depois de passar por alguns empregos menores, consegue a vaga de coordenador de palco no Sheffield Repertory Theatre. Pelos dois anos seguintes fez de tudo nos bastidores, mas sua grande virada foi substituir o ator principal doente em uma das noites da temporada. Consegue um papel na peça “Serious Charge” que o leva para sua estreia no cinema em 1955, com “Passage Home”. A partir daí, o prestígio na atuação, alternando entre cinema e TV, foi crescendo e fez com que ele fosse sondado para um projeto ambicioso. Ainda não era O Prisioneiro, mas algo que influenciou bastante o caminho até lá.

No começo da década de 1960, o produtor Lew Grade, da rede britânica ITC, procurava um ator para uma nova série de aventura e espionagem, com episódios de meia-hora. McGoohan, católico fervoroso, fez uma série de exigências previstas em contrato antes de aceitar, tais como o personagem utilizar sempre a mente antes de precisar usar uma arma e, para desgosto dos produtores, que não houvesse beijos! O programa foi o ar entre 60 e 61, batizado como Danger Man e seu personagem principal chamava-se John Drake. Após 39 episódios, não há informação objetiva sobre o motivo pelo qual a série foi paralisada, mas a associação pessoal de McGoohan com o universo dos espiões, mais seu tipo físico e estilo, fizeram com que ele fosse um dos vários atores cotados para a estreia no cinema, em 1962, de um certo agente com licença para matar. Seus rígidos padrões morais explicam sua falta de interesse no papel, mas costuma-se creditar ao estouro de James Bond a volta de Danger Man (Exibido como Secret Agent nos Eua) à TV, agora com capítulos de uma hora, de 1964 a 67. O sucesso permitiu que os dois últimos fossem rodados em cores, e completando 86 episódios como John Drake, era o fim para o personagem, mas também o momento de colocar em prática novas ideias.

McGoohan como John Drake, em Danger Man!

McGoohan como John Drake, em Danger Man!

A ITC e Lew Grade dão sinal verde para uma nova série, mesmo com dificuldade para entender o conceito, que não era fácil de classificar. O programa poderia ser descrito como ficção científica, aventura de espionagem ou suspense psicológico, e talvez fosse tudo isso ao mesmo tempo. Patrick McGoohan e George Markstein, produtor em Danger Man, finalmente começam a desenvolver O Prisioneiro. Existem controvérsias sobre o peso de cada um dos dois parceiros na criação de tudo, mas o primeiro costuma ser apontado como a verdadeira cabeça por trás da série. Começa então a saga de um espião inglês, cujo nome nunca é revelado, que pede demissão por algum motivo não esclarecido. Voltando à sua casa em Londres, é seguido e ao fazer as malas, um gás se espalha no local fazendo-o desmaiar. Ao acordar, parece ainda estar em sua casa, mas olhando pela janela descobre-se em uma espécie de balneário surreal, de localização desconhecida. As pessoas usam roupas espalhafatosas e guarda-chuvas coloridos, ninguém é chamado por seu próprio nome, mas designados por números. O ex-espião é agora chamado Número 6 e o lugar, chamado de A Vila, é administrado pelo Número 2, um cargo ocupado por alguém diferente a cada episódio. Número 6 é informado de que está ali para que revele os reais motivos de sua demissão, o que ele recusa, mas o objetivo da Vila parece não ser apenas confinar pessoas que tiveram acesso a segredos de Estado, mas também quebrar a força de vontade e individualidade de cada um, num regime de vigilância invasiva e imposição. Como se não bastasse, não há garantia nenhuma de que as pessoas ao redor sejam também prisioneiras ou mandadas para vigia-lo. O Número 6, cercado por uma tecnologia estranha e sem saber quem é o Número 1, fará de tudo para escapar desta prisão, mas a Vila tentará dobra-lo a todo custo.

Número 6 e Número 2

Número 6 e Número 2

Em cerca de três minutos, a abertura do seriado resumia essa ideia principal, mostrando o irritado agente entregando sua demissão em mãos e o início de seu encarceramento. A curiosidade sobre essa cena é que o homem atrás da mesa é o co-criador, George Markstein. Quase todos os episódios começam com essa sequencia, mudando apenas a figura e a voz do Número 2 que aparecia naquela semana.

Rover, o bizarro sistema de segurança da Vila!

Rover, o bizarro sistema de segurança da Vila!

Estreando no Reino Unido em 29 de setembro de 1967, com apenas dezessete episódios ao todo, O Prisioneiro se destacou ao evitar o que se esperaria de um produto com essa sinopse. Colocado assim, pode parecer que a cada semana era apenas o Número 6 tentando fugir, sendo frustrado nos minutos finais de um jeito bem anticlimático. Muito mais do que isso, a série inovou convidando o público a pensar e interpretar de algum jeito aquilo que assistia. Desde o nome do personagem principal nunca revelado, não houve intenção de entregar uma explicação clara sobre os mistérios que envolviam a Vila e seus habitantes. Refletindo o período conturbado que mundo passava, cada aventura do Número 6 serve, até hoje, como metáfora e crítica social em cima de diversos tópicos. Se até aqui já ficou evidente que havia uma discussão sobre vigilância e cerceamento de liberdade individual, é perceptível que existe algo mais quando em “Arrival”, o piloto da série, assistimos ao protagonista responder ao Número 2:

-EU NÃO SEREI PRESSIONADO, ARQUIVADO, CARIMBADO, CLASSIFICADO, RESUMIDO, INTERROGADO OU NUMERADO! MINHA VIDA ME PERTENCE!

A fala é claramente inspirada num texto chamado “Ser governado” do pensador anarquista Pierre-Joseph Proudhon. Segue um trecho:

“Ser governado é ser guardado à vista, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, depositado, doutrinado, instituído, controlado, avaliado, apreciado, censurado, comandado por outros que não têm nem o título, nem a ciência, nem a virtude.”

Se alguém se lembrou da música “Carimbador Maluco”, de Raul Seixas, não é por acaso. A inspiração veio da mesma fonte. Aumentando um pouco o caráter surreal da história, O Prisioneiro e o Maluco Beleza tem algo em comum.

350px-HomernumbersixNo episódio “A, B & C”, uma nova tecnologia é usada para extrair informações, invadindo os sonhos do Número 6. Impossível não se lembrar da trama do filme “A Origem”, principalmente por ser de Chris Nolan e produzido depois do cancelamento do tal remake em longa-metragem que ele dirigiria. Em “Free for All”, abrem-se questões sobre a manipulação do coletivo em eleições democráticas apenas na superfície. Em “The General” discutiu-se o papel da educação na sociedade e como ela pode servir a interesses de um sistema corrupto. Entre outros temas e interpretações, houve também soluções bastante criativas para driblar problemas e surpreender o público. Em “Do Not Forsake Me, Oh My Darling” McGoohan estava ausente, trabalhando em Hollywood no filme “Estação Polar Zebra”, com Rock Hudson. A solução foi criar um roteiro que lidava com troca de mentes, e assim o Número 6 apareceu interpretado por outro ator. Em “Living in Harmony”, apesar dos créditos e o nome no início, o cenário de western e ausência dos conceitos comuns da série, até o final devem ter deixado uma boa parte do público intrigada.

Número 6 e as eleições no episódio "Free For All"

Número 6 e as eleições no episódio “Free For All”

As perguntas são um fardo para os outros; as respostas uma prisão para si mesmo. 

A mítica, as teorias e as histórias por trás de O Prisioneiro são bastante interessantes. Até hoje há quem afirme que a ordem dos episódios é diferente da oficial, exceto pelo piloto e os dois últimos. Também surgiu a teoria sobre o Número 6 ser na verdade John Drake e tudo aquilo uma continuação de Danger Man. Isso foi negado categoricamente por McGoohan, criando um atrito com George Markstein, que segundo o Imdb, não só confirmou como também autorizou romances baseados na série que se referiam ao Número 6 como John Drake.  Markstein também queria tudo fosse esclarecido no final, mostrando ao público o que aconteceu “de verdade”, e claro que McGoohan foi contra. Pela vontade de seu intérprete e criador, O Prisioneiro teria apenas sete episódios, porém a emissora pretendia algo mais vendável e ao estilo dos seriados da época. Lew Grade propôs duas temporadas, com treze episódios cada, com o encerramento da história. Contrariado, o ator aceitou e a produção seguiu.

"Do Not Forsake me, Oh My darling". Número 6 em outro corpo.

“Do Not Forsake me, Oh My darling”. Número 6 em outro corpo.

Cenário de western em "Living in Harmony"

Cenário de western em “Living in Harmony”

De acordo com o site http://www.the-prisoner-6.freeserve.co.uk/ , uma grande fonte de consulta sobre o assunto, apesar de toda aura cult posterior e interpretações de todo tipo, o caminho do início até o encerramento foi conturbado e repleto de arranjos de última hora. Entre estouros de prazos apertadíssimos e de orçamento, vários episódios fora de ordem parcialmente filmados e a discórdia quanto aos rumos do programa – culminando numa despedida amarga de George Markstein no episódio doze -veio uma ordem de cancelamento. Foi permitido que os quatro episódios em andamento fossem terminados e apenas mais um fosse escrito e produzido para o fechamento. Lembrando que o planejamento do canal previa duas temporadas de treze episódios, é provável que o ator tenha ido filmar em Hollywood por já saber do destino da série, pois o episódio em que o Número 6 troca de corpo é justamente o décimo terceiro. Difícil supor que a equipe seria avisada tão em cima da hora, portanto, logisticamente é mais aceitável que antes disso todos já sabiam que a primeira, e única, temporada seria alongada para dezessete capítulos. “Once Upon a Time”, o décimo sexto, era um dos episódios inacabados que aguardavam finalização e talvez tenha sido pensado como o final de um primeiro ano, pois mostrou um embate psicológico bastante contundente entre o Número 6 e o Número 2. Coube a McGoohan, que já havia escrito e dirigido outros episódios, a tarefa de costurar as pontas a partir dali, assumindo novamente as duas funções, com prazos inumanos, claro. O episódio final, “Fall Out”, exibido em 1º de fevereiro de 1968, é uma continuação direta do anterior. Foi escrito em apenas um fim de semana, mas o cronograma impedia um maior detalhamento e consta que Kenneth Griffith, ator que interpretou o juiz, teve que escrever suas próprias falas.

Com todo um histórico de problemas, “Fall Out” poderia ter sido qualquer bobagem esquecível, semelhante a muitas séries recentes metidas a besta. Ao invés disso, mantendo a provocação e estímulo à participação ativa do público que permearam toda a série, Patrick McGoohan conseguiu ir além e entregou uma peça que rende mais discussões que a infidelidade de Capitu. O fim da saga do espião sem nome em busca da liberdade, com direito a Beatles na trilha sonora, é algo carregado nas tintas do simbolismo, da psicologia e da filosofia, hoje lembrando David Lynch e Alejandro Jodorowsky. Se ao longo dos episódios anteriores foram apresentadas alegorias sobre controle e alienação – muito mais evidentes hoje em dia –  cujo objetivo era questionar o mundo real e seus mecanismos, essas reflexões acabavam se situando mais no meio ambiente e na corrupção do sistema. Em “Fall Out”, as correntes do humanismo e existencialismo são evocadas e atingem o pico, quando é o próprio indivíduo, seu papel e sua percepção do mundo sendo discutidos. Tamanha liberdade talvez só tenha sido possível pela correria do cancelamento e a necessidade de colocar algo no ar, mas não importa. Foi um final digno para uma das séries mais singulares e estranhas, no bom sentido, já realizadas.

"Fall Out" , o episódio enigma

“Fall Out” , o episódio enigma

A má notícia é que esta peça única do entretenimento televisivo é ignorada pelas distribuidoras e canais pagos do Brasil. Infelizmente, resta aos os fãs mais ansiosos e os curiosos comprarem o os DVD’s ou Blu-ray’s importados, mas dificultando ainda mais, as caixas com a série completa, lançadas lá fora, não contam com legendas em português. Curioso, pois há bastante oferta de discos importados com esse recurso. É realmente uma pena, mas para quem não se importa com esse detalhe, essa compra vale muito a pena também pelo material extra. Se a paciência for grande, espere. Algum dia, caso o tal remake em longa-metragem seja produzido, é quase certo que haverá mais interesse em reprisar o original e lança-lo aqui emhome vídeo.

Faltou falar da versão de 2009. Bem, talvez o futuro traga uma postagem totalmente dedicada a esse assunto, ou não. Por ora, basta dizer que essa é uma daquelas produções em que você procura assistir por curiosidade, depois fica a dúvida se aquilo foi feito apenas para aproveitar uma marca. Se alguém agora estiver gritando “AH, MAS NÃO PODE COMPARAR!!!” eu estou humildemente respondendo “Então, que usassem outro nome e esquecessem o original”.

A esquecível versão de 2009.

A esquecível versão de 2009.

E isso é O Prisioneiro. Atual, provocativo, estranho, bizarro, genial e um sem-número de adjetivos, alguns nem tão lisonjeiros, mas ele sobreviveu e transcendeu sua época , cativando fãs e alimentando debates até hoje. Se você já viu, ou verá, pode ser que não goste, que discorde de tudo aqui escrito, que tenha uma visão totalmente diferente da minha, ou até ache que tudo não passa de uma grande enganação com um belo verniz intelectualóide. Vai fundo! O que vale é a troca de ideias, afinal não estamos na Vila…

De olho em você!

Via Formiga Elétrica