SOCIALISMO E ESPIRITISMO

Socialismo e Espiritismo incluindo

De Léon Denis

Tradução de Wallace Leal V. Rodrigues, publicada pela Casa Editora O Clarim

  1. Em seu prefácio, o saudoso confrade, jornalista e político Dr. Freitas Nobre lembra que Léon Denis, filho de operário, já aos 12 anos de idade trabalhava descolando folhas de cobre na Casa da Moeda de Bordeaux. Essa origem operária ajudou a marcar o sentido social de sua vida. Com raízes operárias e ele próprio trabalhando de dia para garantir os estudos de noite, pôde mais tarde dedicar-se ao movimento cooperativista e ao ensino a pessoas carentes. Não lhe foi, portanto, difícil compreender, conforme expõe nesta obra, que Socialismo e Espiritismo estão unidos por laços estreitos, visto que um oferece ao outro o que lhe falta. (Pág. 12)

  1. Freitas Nobre adverte, no entanto, que o conceito materialista da história não se conjuga com a doutrina espírita e, nesse aspecto, as posições são inconciliáveis. Marx, observa Freitas Nobre, considerava o espiritualismo uma irrealidade e o responsabilizava pelo apoio aos regimes reacionários e conservadores, ignorando a essência revolucionária do Cristianismo e não percebendo que os erros estavam na sua distorção e não na sua essência original. (Pág. 26)

  1. No capítulo de abertura do livro, Léon Denis diz que, antes de tudo, importa bem definir os termos que emprega. “Para nós – diz ele –, o Socialismo é o estudo, a pesquisa e a aplicação de leis e meios susceptíveis de melhorar a situação material, intelectual e moral da Humanidade.” E avisa: “Nessas condições são numerosas as nuanças, as variedades de opiniões, de sistemas, desde o Socialismo Cristão até o Comunismo, e todo o homem cuidadoso com a sorte de seus semelhantes pode se dizer socialista, quaisquer que sejam, aliás, suas predileções”. (Pág. 31)

  1. Depois de dizer com toda a clareza que a questão social é, acima de tudo, uma questão moral, Léon Denis afirma: “Nós subscrevemos voluntariamente as reivindicações legítimas da classe operária reclamando para o trabalhador a sua parte de influência e de bem-estar, seu direito aos benefícios industriais, e seu lugar ao Sol, porém reprovamos os meios violentos e revolucionários que seriam um perigo para a sociedade ocidental, depois de ter arruinado a sociedade russa”. (Pág. 32)

  1. Observa Denis que o que caracterizava atualmente o estado de espírito do Socialismo, à exceção de algumas raras unidades, era o conhecimento insuficiente e muito rudimentar das leis universais. Sem observação delas, toda obra humana está condenada por antecipação à impotência, à esterilidade, quando não culmina em desordem e caos. (Pág. 32)

  1. Depois da 1a. Grande Guerra, ocorrida de 1914 a 1918, o nível intelectual e moral sensivelmente abaixou, as paixões se desencadearam, os apetites e a avidez se tornaram mais ásperos e mais ardentes. É que sua melhor parte de homens se foi. (Pág. 33)

  1. A grande lei da evolução, que rege todos os seres, deve servir também de base a toda a organização social. O essencial seria, pois, fazer conhecer ao homem, antes de mais nada, de onde ele vem para onde ele vai, ou seja, qual a finalidade real da vida e a sua destinação. Somente então surgirá em toda a claridade, e em todas as conseqüências sociais, essa solidariedade que liga os seres em todos os graus de sua ascensão. (Pág. 34)

  1. Depois das doutrinas do passado, que não nos trouxeram senão a obscuridade, a incerteza, o Espiritismo projeta uma viva claridade sobre o caminho a percorrer e nos mostra a ordem, a justiça, a harmonia que reina no Universo. Que o socialista se torne razoável e adote essa grande doutrina, essa ciência vasta e profunda, que esclarece todos os problemas e nos fornece provas experimentais da sobrevivência, e o Socialismo poderá tornar-se uma das alavancas que levará a Humanidade para destinos melhores. (Pág. 35)

  1. De origem operária, depois da Guerra de 1870 entre a França e a Alemanha, Léon Denis compreendeu que era preciso trabalhar com ardor para a educação do povo. Com este fim e o auxílio de alguns cidadãos devotados, ele havia fundado, em sua região, a “Liga do Ensino”, da qual se tornou secretário geral. Bibliotecas populares foram criadas e se iniciaram por toda a parte séries de conferências, fatos que ele menciona para mostrar que seu contato com as classes trabalhadoras vinha de muito tempo. (Pág. 36)

  1. Agora que a idade lhe branqueara os cabelos, Denis diz apreciar mais altamente as vantagens que as reencarnações entre os humildes e a livre aceitação da lei do trabalho proporcionam a todas as pessoas. É que o trabalho é um preservativo soberano contra as armadilhas da paixão, uma espécie de banho moral, um sinônimo de alegria, de paz, de felicidade, quando é realizado com inteligência e obstinação. (Págs. 36 e 37)

  1. Ele compreendia melhor por que a lei da evolução leva imensa maioria de seres a renascer no seio de classe laboriosa para aí desenvolver sadias energias, fortalecer o caráter, tornar o homem verdadeiramente digno deste nome. Na luta constante contra as necessidades, no esforço cotidiano para se sair do aperto das necessidades, pouco a pouco a vontade se afirma, o julgamento se consolida, as mais belas qualidades desabrocham. Eis por que as maiores almas que passaram pela Terra – o Cristo, Joana d’Arc e tantos outros nobres Espíritos – renasceram em condições obscuras, para servir de exemplo à Humanidade. (Pág. 37)

  1. Léon Denis diz que desde a infância, em meio às dificuldades que teve de vencer, foi sempre sustentado pelo “lado de lá”, ou seja, por seus guias espirituais, que no entanto só se revelaram mais tarde. Ele possuía então a faculdade mediúnica da psicografia e obtinha comunicações de forma bastante literária. Essa faculdade desapareceu depois, subitamente, quando se tornou conferencista. “Meus protetores do espaço – revela Denis – me explicaram que haviam adaptado seus recursos fluídicos às minhas facilidades oratórias, aos meios de improvisação como sendo mais eficazes para a difusão do Espiritismo.” (Págs. 37 e 38)

  1. Foi somente em 1880 – Denis contava 34 anos – que ele abordou franca e publicamente os temas espíritas. As platéias eram então pouco favoráveis e foi preciso, mais de uma vez, suportar os escárnios, as objeções pueris e sobretudo o alarido dos ouvintes. (Pág. 38)

  1. O Socialismo professado naquela ocasião por Volders e Beck estava profundamente imbuído das teorias materialistas. Os operários eram, contudo, tomados individualmente, isolados, pouco acessíveis às doutrinas subversivas: o comunismo e o anarquismo. Eles guardavam, sem dúvida, dos séculos de servidão uma espécie de atavismo intuitivo que os tornava hostis a todas as formas de opressão e possuíam no fundo de si mesmos o sentimento da realidade, o amor pela justiça e pelo progresso. (Págs. 39 a 41)

  1. Era sobretudo nos grandes centros industriais que os agentes excitadores tinham mais acesso sobre as massas operárias e que a palavra dos oradores inflamados melhor as alcançava, propelindo-as para os excessos, embora tivessem estes pouca duração. A França lhe parecia um país de bom senso, refratário às teorias bolchevistas. “O que se chama de ‘luta de classes’ – afirma Léon Denis – não existe senão no papel. Em realidade, não há mais classes desde a Revolução, não há mais entre elas limites precisos, pois há penetração recíproca e contínua.” Todo trabalhador poderia tornar-se patrão. A burguesia tem suas raízes no povo e nele se recruta incessantemente. (Pág. 41)

  1. 16. Assistia-se, diz Denis, “a um começo de desagregação da sociedade”. “O cimento que liga os elementos do edifício, isto é, o espírito de família, a disciplina social, o patriotismo, o sentimento religioso etc. se enfraquecem e se decompõem.” A quem imputar a responsabilidade por esse estado de coisas? “Em grande parte à Igreja e à Escola”, explica Denis. A Igreja, porque – petrificada em seus dogmas – ela se tornou impotente para comunicar ao corpo social essa fé viva que é a grande força, a alma das nações. Seu catecismo, incompreensível e incompreendido, era notoriamente insuficiente para esclarecer e guiar as crianças do povo nos caminhos difíceis da existência. (Pág. 42)

  1. Quanto à Escola, então ampla e obrigatória, fora ela uma reação contra a escola congregacionista, imbuída de prejuízos dogmáticos e de doutrinas seculares. Os promotores da escola laica tinham um programa impregnado do ideal espiritualista. Os manuais de Paul Bert, de Compayrè, ensinavam a existência de Deus, a imortalidade do ser, e procuravam reacender o fogo sagrado nas almas francesas. Seus sucessores, entretanto, em sua política terra-a-terra, eliminaram de pouco em pouco estas noções de idealismo e a escola caiu sob a influência materialista. Desde então, a instrução laica, desprovida de elevação, desenvolveu o sentimento pessoal. Ora, do orgulho ao egoísmo não vai mais que um passo, e, trinta anos depois, este cresceu graças ao bem-estar procurado por uma civilização materialista, porque quando a instrução é desprovida de freio moral, de sanção, e nela se imiscui a paixão material, ela não faz senão superexcitar os apetites, os desejos de gozos e se traduz por um egoísmo desenfreado. (Pág. 43)

  1. É preciso, pois, combater o egoísmo por um ensino idealista regenerador. Vencido o egoísmo, será mais fácil extinguir as outras paixões que corroem o coração humano. A escola neutra representa, hoje em dia, um conjunto de conhecimentos privados do bem moral necessário para constituir uma educação, uma direção eficaz. Ela reencontrará o seu prestígio, o seu poder benéfico, assimilando uma doutrina espiritualista independente, suscetível de substituir todos os ensinamentos confessionais. Essa doutrina, só o Espiritismo pode fornecê-la. Aguardando essa fusão necessária, qual é o papel de nós espíritas? É o de criar, de multiplicar o exemplo de nossos irmãos lioneses: as escolas dominicais onde a doutrina e a moral espíritas são ensinadas às crianças, assim como aos adultos. (Págs. 43 e 44)

  1. O que foi dito da escola primária aplica-se ao ensino superior e mesmo à Ciência que um dia, tornada integral e homogênea, abraçará em seus estudos os mundos visível e invisível e penetrará neste oceano de vida oculta que nos envolve. Graças à descoberta das forças radiantes e dos estágios sutis da matéria, a Ciência humana começou a entrever a possibilidade de uma vida invisível, mas, antes de ter analisado esse estágio da vida por seus métodos atuais, antes de ter examinado as leis e suas conseqüências morais, podem escoar-se muitos séculos! É por isso que o ensinamento dos Espíritos vem abrir ao homem mais vastos horizontes, iniciando-nos nas leis da harmonia universal em um momento difícil em que a Humanidade parecia inclinar-se para um abismo de trevas e de dores. (Págs. 45 e 46)

  1. O Socialismo tornou-se uma força com a qual é preciso contar. Ele tem para si o futuro; triunfará, talvez, sob formas bem diferentes daquelas sob as quais tem sido concebido e sua obra será pacífica ou sangrenta, conforme o princípio, a idéia mestra que a inspirará. Faltava, contudo, aos socialistas de então o essencial, o cimento que poderia reuni-los: a fé elevada e o espírito de sacrifício que ela inspira. Faltava-lhes o ideal poderoso que aquece, fecunda e vivifica. (Pág. 47)

  1. Os socialistas que se inspiravam em certas teorias científicas erigiram o materialismo e o ateísmo à altura de um princípio. Fez-se tábua rasa de todas as esperanças no Além, de toda idéia de imortalidade, de toda concepção de um ideal divino. E é esse estado de espírito que o torna estéril ou funesto. (Pág. 48)

 

  1. Pergunta-se se esse sentimento elevado de justiça e de solidariedade, se este ideal superior é conciliável com o conflito dos interesses e a luta pela vida. Ora, para pôr um freio às paixões violentas, às cobiças furiosas, a todos os baixos instintos que entravam o progresso social, não é preciso apelar para a inteligência e a razão. É preciso, sobretudo, falar ao coração do homem, ensiná-lo a reconhecer a finalidade real da vida, seus resultados, suas conseqüências, suas responsabilidades, suas sanções. Enquanto o homem ignorar o alcance de seus atos e sua repercussão sobre o seu destino, não haverá melhoria durável na sorte da Humanidade. O problema social é, sobretudo, um problema moral, ou seja, o homem será desgraçado enquanto for mau. (Págs. 50 e 51)

  1. É preciso lembrar que é em sua fé religiosa que as comunidades cristãs do Oriente e do Ocidente e, na América, as Sociedades dos Quakers, encontraram as regras de disciplina, o princípio da associação e de devotamento que assegura o bem-estar, a prosperidade dessas instituições e de seus membros. (Pág. 52)

  1. Evidentemente, em nossa época, sobretudo na França – observa Denis –, a fé religiosa não tem mais intensidade para servir de base a uma transformação social ou a uma organização econômica, porquanto os ensinamentos nebulosos das igrejas sobre as condições da vida futura, seu dogmatismo estreito, suas ameaças pueris, relativas a castigos imaginários, tudo isto terminou por semear, até mesmo entre seus fiéis, o ceticismo ou a indiferença. A revelação dos Espíritos vem, no entanto, aclarar as condições da vida no Além e o destino dos seres e mostrar que a lei da reparação se impõe a todos, não mais sob a forma de um inferno ridículo, mas por existências terrestres que se sucedem, nas quais as pessoas resgatam um passado de culpas e conquistam um futuro melhor. (Págs. 52 e 53)

  1. A sanção torna-se desse modo precisa. Cada um de nossos atos recai sobre nós e seu conjunto constitui a trama de nosso destino. A justiça e a solidariedade encontram aí sua plena e inteira aplicação. Os ensinamentos dos Espíritos exercem sobre aqueles que os recebem uma impressão profunda, pois que emanam, as mais das vezes, de seres que conhecemos e amamos na Terra, os quais descrevem suas sensações na vida espiritual, suas situações boas ou más, segundo os seus méritos e o seu grau evolutivo. (Pág. 53)

  1. Esses ensinamentos proporcionam a todos nós uma compreensão mais nítida das grandes leis de justiça e de harmonia que regem o Universo e, por isso, oferecem maior coragem na prova, maior resolução no cumprimento do dever. Cria-se então uma atmosfera de fraternal confiança que torna mais fácil a solução de numerosos problemas sociais que o egoísmo, a ignorância e o ódio haviam até aqui tornado insolúveis. (Pág. 54)

  1. Em realidade poder-se-ia dizer que o Espiritismo é um Socialismo etéreo baseado sobre as regras absolutas da justiça e sobre as leis da consciência e da razão. Seus princípios são imutáveis e mostram à Humanidade o caminho do dever pelo qual ela se proporcionará a verdadeira luz e a plenitude de suas liberdades e de seus direitos. Os espíritas sabem que a obra divina representa o trabalho da justiça, a sabedoria e a beleza. Tudo age, progride e sobe, desde o átomo até Deus. As leis da evolução são soberanas, mas na Terra essa evolução não pode ser senão lenta e gradual. (Pág. 56)

  1. É essa lei sublime que estabelece conexão com a noção do direito e do dever, a de todo o indivíduo participar na ordem social na razão do seu grau evolutivo. Uns trabalham na ordem imediata para assegurar os direitos de uma vida transitória, outros para uma finalidade mais vasta na ordem futura, para preparar a evolução coletiva. Se todos os homens estivessem penetrados do esplendor dessas leis, compreenderiam a finalidade que perseguem através dos tempos e se associariam de todo o seu coração, de toda a sua alma, à obra universal da beleza e da harmonia, pois saberiam que, trabalhando para o todo, trabalhariam para si mesmos. Não se veriam então tantos ódios, resistências, revoltas e outros males. (Pág. 57)

  1. Em janeiro de 1924, após o encerramento da Grande Guerra, diz Léon Denis que os Espíritos lhe disseram que as lições da Guerra não trouxeram os frutos que se poderiam esperar. Passado o perigo, a matéria caiu mais pesadamente sobre o Espírito e superexcitou os apetites e a avidez. Como deter esse transbordamento de paixões que arrastava a todos para o abismo? Suprimindo o meio que as desencadeia: o dinheiro. Daí a crise financeira que acometia o mundo naqueles anos longínquos. Todos seriam atingidos do ponto de vista social ou financeiro, porque, de acordo com uma lei imanente e superior, todo capital adquirido sem escrúpulo, sem trabalho, será volatilizado. Ruínas sem número e a queda de muitos e grandes estabelecimentos seriam inevitáveis. (N.R.: A predição feita pelos Espíritos cumpriu-se em todos os seus pontos. A inflação corroeu a economia alemã e européia. A crise de 29 levou os Estados Unidos à bancarrota. Como a sociedade insistiu em sua dureza de propósitos, a 2a. Guerra Mundial acabou chegando mais cedo do que se pensava.) (Pág. 58)

  1. Do ponto de vista espiritual, é preciso regenerar a massa através do trabalho e de uma orientação nova, pois é pelo trabalho que se podem criar os objetos necessários às mudanças que são as fontes vitais da existência. Há ainda o medo, que é o início da sabedoria. Importava, pois, que cada um se voltasse para si mesmo. Uma nação sem ideal, sem um fim elevado, é logo reduzida a pó. Da mesma forma que, para contemplar um quadro, é preciso um certo recuo da parte do observador, para julgar a civilização é preciso considerá-la do alto. Sob suas faces brilhantes via-se então aparecer o longo cortejo de seus erros, de seus defeitos, de suas misérias morais, e sua maior falta foi ter dado um espaço muito grande às coisas da matéria, passageira e perecível, em detrimento do espírito, cuja vida é imortal e infinita. Resulta daí uma contradição com a lei suprema de evolução e, desta contradição, decorre um estado social, uma situação perturbada, falseada, por vezes dolorosa. (Págs. 59 e 60)

  1. Rendamos ao espírito sua supremacia e vejamos na matéria o que ela realmente é: um meio de ascensão e não uma finalidade. Aprendamos a conhecer e a nos comunicar com este universo invisível no qual se desenrolam nossos destinos sem limites. Aprendamos a pôr nossas vibrações e nossos pensamentos em harmonia com o mundo dos Espíritos, no qual seremos chamados a viver nossa verdadeira vida. (Pág. 60)

  1. A sociedade terrestre, para prosseguir esta evolução, deve renunciar ao materialismo, que é insuficiente, e apoiar-se, doravante, sobre esta noção mais alta das existências sucessivas do ser e de uma vida universal regida por leis de eqüidade e de harmonia. Nelas leis encontrar-se-á o remédio que supre os nossos males e a solução dos graves problemas da hora presente e do futuro. (Pág. 61)

  1. A sabedoria antiga já recomendava: “Conhece-te a ti mesmo!” Mas o que o homem conhece de menos é ele mesmo, e dessa ignorância decorre a maior parte de seus erros, de suas faltas, de seus males. É que o homem moderno não se interessa senão por seu envoltório material, ou seja, o que há de menos essencial em nós. (Pág. 62)

  1. O homem ouve raramente as vozes que falam nele, distraído que está, na maioria das vezes, pelas preocupações exteriores. Ora, abafadas as vozes da consciência, afogadas as fontes de inspiração sob a onda montante dos interesses e das paixões materiais, o ensinamento dos Espíritos vem restabelecer a lei moral e chamar a todos às regras da vida aqui embaixo e no Além. (Pág. 63)

  1. Por esse ensinamento a justiça surge-nos como uma norma do Universo, não como a justiça humana, defeituosa sempre, mas a justiça divina, infalível, temperada pela misericórdia. Nada de penas eternas, mas a possibilidade para todos os culpados da reparação, da reabilitação pela expiação, pela dor. (Pág. 63)

  1. O Espiritismo, bem compreendido, bem praticado, torna-se assim para os corações sofredores, para as almas desoladas, uma fonte imensa de força moral e de consolações. A moral é uma das expressões da lei eterna, divina, de evolução e progresso, lei da qual ela é inseparável, pois nela encontra seu apoio e sua sanção. É por isso que a moral dita positiva, separada da noção da imortalidade e da idéia de Deus, é sempre fria. Não impressiona nenhum coração, nenhum Espírito e permanece estéril. É a semente atirada sobre a rocha. Foi a moral da escola laica durante trinta anos e dela podemos constatar os frutos ásperos na mentalidade das gerações que dela saíram. (Pág. 64)

  1. O ensino moral deve mostrar a todos a finalidade da vida, que não é a procura da felicidade, como muitos pensam, mas o aperfeiçoamento e a depuração do ser que deve sair da existência melhor do que nela entrou. Os meios de realização são o trabalho, o estudo, o esforço constante para o bem. (Págs. 64 e 65)

  2. A reforma social deveria, pois, para ser mais segura e mais prática, começar pela reforma do homem em si mesmo. Se cada um se impusesse uma disciplina intelectual, uma regra capaz de asfixiar, de destruir um fundo de egoísmo e brutalidade que nos foram legados pelas idades, e toda a bagagem mórbida que trazemos ao nascer, e que é a herança de nossas vidas passadas, a evolução do meio social seria mais rápida. (Págs. 65 e 66)

  1. A felicidade não está fora de nós, mas antes em nossa maneira de julgar as coisas. A tarefa mais urgente, mais necessária para cada um de nós, seria a de trabalhar na cultura do “Eu”, na reforma do caráter, de maneira a servir de exemplo àqueles que nos cercam e à sociedade inteira. (Pág. 66)

  1. Não sendo o estado social, em seu conjunto, senão o resultado dos valores individuais, importa antes de tudo obstinar-nos nessa luta contra nossos defeitos, nossas paixões, nossos interesses egoístas. Enquanto não tivermos vencido o ódio, a inveja, a ignorância, não se poderá estabelecer a paz, a fraternidade, a justiça entre os homens, e a solução dos problemas sociais permanecerá incerta e precária. (Págs. 66 e 67)

  1. As leis de um povo são a reprodução, a imagem fiel de seu estado de espírito e de consciência e demonstram o grau de civilização ao qual chegou. Em todas as tentativas de reforma social, é preciso falar ao coração do povo ao mesmo tempo que à sua inteligência e razão. A sociedade é um agrupamento de almas; para melhorar o todo, é preciso melhorar cada célula social, isto é, cada indivíduo. (Pág. 67)

  1. Para isso, o mais essencial seria dar ao povo uma nova educação, baseada sobre uma doutrina espiritualista vasta e racional. Cabe à escola inculcar na juventude os princípios regeneradores, pois não se forma uma sociedade sem todas as suas peças, e é preciso começar na infância a preparar a obra do século. Faz-se necessário uma concepção simples, nítida, clara da vida e do destino. Para coroar a educação popular é necessário uma alta moral desprendida de preconceitos, de seitas e de castas, impregnada de piedade humana, de piedade para com tudo e com todos, homens e animais. (Pág. 68)

  1. A inveja, o ciúme engendraram o ódio entre as classes pobres. É preciso anular o ódio do coração humano, pois com ele não há paz, harmonia, felicidade possíveis. O ódio não pode ser vencido pelo ódio, mas sim pela bondade, pela benevolência, pela tolerância. A nova educação deverá insistir também sobre a noção das vidas sucessivas, porque enquanto essa grande doutrina não vier esclarecer o caminho do homem na Terra a incerteza persistirá, gerando os tateamentos, os erros e todos os males que decorrem da ignorância. (Págs. 68 e 69)

  1. Compreenderemos então que construímos, nós mesmos, o nosso destino e que nossos atos, bons e maus, recaem sobre nós através dos tempos, com as suas conseqüências. Nossa maneira de agir e de viver seria desta forma, sem qualquer dúvida, profundamente modificada. (Pág. 70)

  1. Não será, assim, difícil compreender que nossas necessidades intelectuais desbordam dos limites de nossa vida e que nossas aspirações e tendências ultrapassam o quadro estreito da existência atual. Compreendamos que tudo no Universo: justiça, verdade, moral, se combina e se funde em um princípio único que é a lei viva do Universo identificada em Deus. Apenas quando o homem gravou essa lei em sua consciência e dela fez o móvel de suas ações é que entra ele em comunhão divina e goza as alegrias espirituais que dela decorrem. Esse fim, esse resultado é certamente longínquo e difícil de ser realizado plenamente na Terra. Entretanto, todas as grandes obras nele se inspiram. Os socialistas devem, pois, adotá-la acima de tudo e fazer dela a regra de seu trabalho, a base de suas organizações. (Pág. 71)

  1. Com efeito, como se poderia vencer o mal, o erro, a injustiça no mundo se não se começar a vencê-los em cada ser em particular? Esta luta, entre todas, é meritória e fecunda, porquanto a cada passo à frente, a cada conquista sobre suas paixões, o homem sente se acrescerem suas forças radiantes e a influência benévola que ela exerce em seus semelhantes. Ele aprenderá então, pouco a pouco, a unir seus esforços aos do mundo invisível para a realização da obra comum: o aperfeiçoamento social. (Págs. 71 e 72)

  1. O Socialismo teria assim, deste ponto vista, um grande papel a desempenhar, que seria o de fazer penetrar na alma do povo o culto da beleza intelectual e moral, sob formas simples, porém capazes de reagir contra esses prazeres malsãos em que o espírito se corrompe, em que o gosto se perverte. Elevar o pensamento para o ideal onde converge toda a evolução universal, para as alturas onde irradiam a luz, a verdade, a bondade – eis o seu papel, pois não basta assegurar o bem-estar material, é preciso também dar ao homem a força moral que o sustente nas provas, nos reveses, nas moléstias, como diante da morte daquele que ele amou. (Pág. 72)

  1. Todas as vantagens materiais, os maiores salários não são suficientes para preservar o homem do desencorajamento, do desespero nas horas dolorosas, quando, por exemplo, tem de descer à tumba o caixão mortuário daqueles que lhe foram queridos, ou quando se sente atingido em seus sentimentos íntimos, em seus afetos mais profundos. Não há doutrina que possa nos trazer tanta consolação e reconforto quanto o novo espiritualismo, que nos demonstra que tudo sobrevive para evoluir e que as almas que nos antecederam no Além guardam-nos os tesouros de sua ternura, nos protegem, nos assistem em circunstâncias difíceis, e que nós as encontraremos um dia para percorrermos juntos novas etapas ascensionais. (Págs. 72 e 73)

  1. O trabalho manual é, para a maioria dos operários, puramente maquinal e deixa toda a liberdade ao pensamento. Se este fosse regularizado, disciplinado, orientado para um fim elevado, poderia tornar-se um meio poderoso de aperfeiçoamento para o indivíduo e, por reflexo, sobre todo o meio ambiente, enquanto que o pensamento flutua quase sempre sobre assuntos pueris e vãos, perdendo assim todo o seu poder educativo e social. Assim como o adágio da sabedoria oriental: “Somos o que pensamos”, quem fala e age segundo um pensamento puro, a felicidade o segue como uma sombra. Os ocidentais não sabem, porém, administrar o jogo de suas faculdades e esta é a razão por que a existência é muitas vezes tão estéril para muitos. Vieram à Terra para se engrandecer intelectual e moralmente e daqui saem, em muitas ocasiões, como chegaram. (Pág. 73)

  1. A lei que estipulou a jornada de 8 horas oferece ao operário mais lazeres para o trabalho intelectual e a cultura do Eu. Que ele saiba tirar partido disso, ciente de que nossas responsabilidades se medem pela extensão de nossa liberdade e de nossos meios de ação. E isto se aplica aos homens de todas as classes e condições sociais. Toda a destinação do ser, as condições de sua vida futura, sua situação no Além, tudo é regido por uma lei imanente que traz em si mesma a sanção. O homem por meio de seus atos faz nele, em sua alma, a luz ou a treva. (Págs. 74 e 75)

  1. Em todos os tempos, em todos os meios, a questão social foi objeto de preocupações de pensadores, filósofos e políticos, e deu nascimento a uma multidão de teorias e sistemas. Os socialistas dividem-se atualmente em escolas diversas. Os alemães, em número importante, prendem-se às teorias de Karl Marx, que se inspiram no materialismo brutal, preconizam as lutas de classes, e sua conclusão desemboca em uma ditadura do proletariado, isto é, no bolchevismo. Ora, sabemos o que esse regime proporcionou à Rússia. (N.R.: Léon Denis fez estas observações em 1924, ano em que faleceu Lenin. O stalinismo não se havia, portanto, iniciado. O que se viu depois, até a extinção da União Soviética, sete décadas mais tarde, mostra-nos quanto Denis estava certo em suas análises.) (Págs. 77 e 78)

  1. Os socialistas franceses adotaram de preferência as doutrinas de Fourier e Proudhon e seu objetivo comum era a supressão do salariado em proveito de um novo regime de propriedade coletiva, com a socialização dos meios de produção e de troca. (N.R.: O Socialismo de Fourier tem um caráter utópico. Fourier se opunha à revolução violenta. Proudhon foi um dos precursores do anarquismo contemporâneo e adversário da luta de classes, da revolução proletária e da ditadura do proletariado.) Desde o começo, no entanto, surgiram entre eles divergências de opinião e contradições inúmeras. Falta-lhes um ideal superior que pudesse religar todos os esforços, coisa que o materialismo em voga não é capaz de inspirar. Pelo contrário, os apetites se fazem à luz e o Socialismo muitas vezes serve de trampolim a ambiciosos destituídos de brio que o utilizam para chegar a seus objetivos políticos. (Págs. 78 e 79)

  1. Estamos, pois, em presença de duas grandes correntes opostas: uma germânica e russa, outra ocidental. A primeira, como vimos, inspira-se num dogmatismo estreito e brutal, formado de teorias preconcebidas, sem relação com as necessidades sociais, e que conduz à dominação exclusiva de uma classe, aos terrorismos e ao nivelamento. A corrente ocidental, francesa e inglesa, é organizadora, construtora, e se estende por todos os seus meios: sindicalismo, cooperativismo, participação, mutualidade, seguro social, de modo a proporcionar aos operários de todas as ordens uma parte crescente nos benefícios da produção e no regime da propriedade. Seu erro é acreditar que se pode atingir o resultado somente através de medidas políticas e econômicas. Esquece-se de que é preciso, acima de tudo, uma fé ardente, um ideal elevado capaz de fecundar todos os esforços, tanto quanto o espírito de devotamento e de sacrifício que permite nascer o sentimento de altruísmo que é o cimento indispensável a toda edificação social. (Págs. 79 a 84)

  1. O conhecimento mais extenso da vida universal e da solidariedade que nos religa a todos os seres mostrará aos socialistas que é preciso elevar-se acima dos interesses de casta e de classe para se realizar qualquer obra mais durável ou de maior vulto. (Pág. 84)

  1. É da tradição da raça anglo-saxônica cultivar a livre iniciativa individual e desenvolver as forças e a vontade de cada um. Os socialistas franceses, ao contrário, esperam quase tudo do Estado. Que teoria responde melhor à grande lei da evolução? Obviamente, a primeira porque, além de assegurar a riqueza e a prosperidade das nações, é também conforme ao princípio universal que conclama todos os seres para o melhor, para o bem, fazendo que cresça sem cessar o “haver” pessoal e coletivo. (Págs. 85 e 86)

  1. O encampamento de todas as coisas pelo Estado paralisa os esforços laboriosos, extingue a livre concorrência e o espírito de emulação. A nacionalização das Minas e das Estradas de Ferro traduz-se quase sempre por um déficit e pela elevação das tarifas, aumentando ainda mais as dificuldades da vida pública. Na realidade, o estatismo enfraquece o poder das nações, sua livre expansão e sua afirmação diante do mundo. O Estado nas mãos de um partido e de uma classe que se apóia na força, como vimos acontecer na Rússia e na Hungria, leva aos piores excessos, destrói a obra dos séculos e conduz o país à ruína, à regressão, à barbárie. (N.R.: A crítica à estatização e ao modelo implantado na Rússia é hoje, menos de oito décadas depois, uma verdade que ninguém discute, porque tudo o que Léon Denis disse se confirmou. Os países que seguiram o mesmo modelo foram simplesmente destruídos e estão tendo de recomeçar, sendo incontestável que as coisas boas que eles criaram poderiam ter sido realizadas sem os crimes, a violência e as barbaridades que infelizmente ocorreram.) (Págs. 86 e 87)

  1. Longe de nós, adverte Denis, de criticar os comunistas de convicção sincera que desejariam estabelecer na Terra o regime social que reina, provavelmente, nos mundos superiores, onde todos trabalham para cada um e cada um por todos, no espírito de devotamento absoluto a uma causa comum. Esse regime exige, no entanto, qualidades morais e sentimento de altruísmo que não existe senão em condições excepcionais em nosso mundo egoísta e atrasado. É fácil demonstrar que as aspirações generosas do comunismo são ainda prematuras e inaplicáveis na sociedade atual. Seria preciso séculos de cultura moral e de educação popular para levar o espírito humano ao estado de perfeição necessário a uma tal ordem de coisas. Eis por que a posse individual dos frutos do trabalho permanecerá sendo por muito tempo o estimulante indispensável, o meio de emulação que assegura pôr em ação o equilíbrio das forças sociais. (Pág. 87)

  1. No momento, o comunismo não é realizável senão no seio de grupos restritos, cuidadosamente recrutados, nos quais todos os membros sejam animados por uma fé intensa e espírito de sacrifício. Não se poderia sonhar com estender-se a sua aplicação a nações inteiras, a milhões de homens de caracteres e temperamentos tão diferentes. E não será através do crime e pelo sangue que se poderá fundar um regime de fraternidade, solidariedade e amor. As instituições não são realmente vivas e fecundas senão quando os homens, por uma vida interior verdadeira, sabem animá-la. Um comunismo sem ideal elevado não poderia ser construído sobre uma areia perpetuamente movediça. (N.R.: Allan Kardec exprimiu idéias semelhantes, como podemos ver em Viagem Espírita em 1862, págs. 81 a 84.) (Págs. 87 e 88)

  1. O que caracterizava o movimento socialista oriental era a absoluta ausência de uma filosofia verdadeiramente humanitária e conciliatória, e as conseqüências funestas desse despojamento surgia a todos os olhos não preconcebidos. A Rússia oferecia, deste ponto de vista, uma lição dolorosa. Quanto à Alemanha, nada havia a elogiar quanto às idéias que dali há mais de um século vinham. O Socialismo de Karl Marx – homem ácido e odioso – tinha por objetivo principal a luta de classes e era desprovido, como o materialismo grosseiro de Buchner e Moleschott, de generosidade e de grandeza. (Págs. 89 e 90)

  1. Lucien Desliniéres, conhecido por seus antecedentes socialistas, escreveu um livro intitulado “Livrai-nos do marxismo”, em que afirma que antes de Karl Marx o Socialismo era profundamente simpático, mas, graças a ele, era agora execrado. “A luta de classes é uma tática perniciosa que desviava do Socialismo aqueles que seriam seus melhores elementos, sem lhe conceder a mínima força”, disse o mencionado escritor. “A classe operária sozinha é incapaz de transformar a sociedade e dirigir o mundo novo. É o marxismo o responsável pelo malogro econômico da Revolução Russa.” (Págs. 90 e 91)

  1. Examinando o assunto, Léon Denis é muito claro: ao invés de atiçar as más paixões e impelir as pessoas à luta de classes, devemos todos aprender a grande lei que regula o destino dos indivíduos e dos povos e faz tombar sobre eles as conseqüências das ações cometidas. Temos todos necessidade uns dos outros. Toda demarcação entre os diferentes meios sociais é arbitrária. Entre os “burgueses” muitos trabalham tanto quanto os operários. O homem que possui um capital e o faz produzir, pode parecer desocupado, mas presta serviço ao seu país, porque seu capital, frutificando, permite-lhe empreender obras novas. (Págs. 93 e 94)

  1. O trabalho é um dever social para todos os seres em vista da evolução, que não se acomoda na beatitude ociosa nem na passividade, porquanto a atividade do ser se acresce na medida de sua elevação. Todos devem participar da obra social, seja intelectual seja materialmente. Em nosso planeta inferior, tudo necessidade de esforço. As pretensões recentes do Socialismo de dar a supremacia ao trabalho manual sobre a inteligência leva fatalmente ao enfraquecimento desta. Disto resulta uma regressão geral, uma contradição das leis e das finalidades do Universo, que, ao contrário, concedem a supremacia ao espírito sobre a matéria. É por isso que o verdadeiro ponto de partida dos socialistas deveria ser a educação, o ensino. Realizando-se o progresso intelectual e moral, o progresso material seria inelutável conseqüência. (Págs. 94 e 95)

  1. Para resolver o problema social os teóricos, como já vimos, propõem diversos sistemas: coletivismo, estatismo, comunismo etc. Mas, acima de todos os sistemas surge uma questão: para melhorar a sorte das pessoas, para pôr fim aos abusos, para deter a exploração do homem pelo homem será preciso recorrer a instituições, a regulamentos, a leis? (Pág. 97)

  1. Em primeiro lugar é preciso entender que no Socialismo, como na política, os homens têm o que merecem; suas obras sociais estão sempre relacionadas com o estado de aperfeiçoamento que puderam atingir. Se quisermos preparar um futuro melhor, comecemos por instruir o homem, para torná-lo mais sábio, mais esclarecido, mais senhor de si e de suas paixões. O ódio não pode fundar nada de fecundo, de duradouro. O que todas as vantagens materiais, a participação nos benefícios, os altos salários não puderam realizar, uma grande doutrina, simples, consoladora e pacificadora, poderá fazê-lo. (Págs. 97 e 98)

  1. As reivindicações socialistas falaram abundantemente ao operário quanto aos seus direitos, mas nunca quanto aos seus deveres. Negligenciaram o cultivo das suas qualidades morais e o desenvolvimento nele do espírito da ordem, da sabedoria, da previdência, e qual foi o resultado? O povo viu aumentar seu bem-estar físico, mas não é mais feliz: tornou-se mais exigente, mais descontente, menos consciencioso. E, no entanto, para mudar tudo isto, bastaria inculcar em todos o amor pelo trabalho e a confiança na vida, que não são mais, em realidade, que a elevação lenta e gradual para a luz, para a perfeição. (Págs. 98 e 99)

  1. Não se pode ignorar que não há outro direito senão aquele que resulta dos méritos adquiridos, dos serviços prestados, de uma participação eficaz na obra de civilização e de progresso. Todo direito adquirido comporta uma série de deveres correspondentes. A liberdade é proporcional ao grau evolutivo do ser e cresce na medida de sua ascensão na escala infinita das existências e dos mundos. Não há nada maior ou mais nobre na destinação humana: a conquista da liberdade por esforços constantes para o bem, o franqueamento gradual das baixas servidões, a educação, o aperfeiçoamento da alma através das vidas sucessivas. (Pág. 99)

  1. Para que reine a ordem social, o Socialismo, o Espiritismo e o Cristianismo devem, portanto, dar-se a mão. Há um interesse capital em congraçar essas três ordens de idéias. Do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista. O ser deve se aperfeiçoar desenvolvendo suas qualidades inatas e apagando os estigmas de suas vidas anteriores. O Socialismo não é, em realidade, senão a aproximação dos fluidos de uma mesma natureza, sua fusão e sua harmonia na vida humana, segundo o grau atingido no curso das existências percorridas. O conhecimento das leis espirituais é, pois, indispensável para estabelecer a verdadeira natureza do ser e sua possível adaptação aos diferentes meios sociais. É preciso que cada ser, possuindo uma força irradiante, um poder atrativo, o transfira, por via de vibrações, àqueles em que o mesmo fluido circula mais fracamente. Isto seria o verdadeiro comunismo. “O objetivo essencial – diz Denis – é obter uma correlação direta entre os pontos de vista moral, fluídico e material.” (Pág. 100)

  1. Os grandes missionários espirituais foram, a títulos diversos, grandes socialistas. O Socialismo é a elevação da coletividade na ordem física e moral, e esta melhoria deve ser regulamentada pela justiça e a razão. Eis por que é preciso chegar a uma fusão integral, por mudanças de força suscetíveis de paralisar as paixões e os caprichos que subsistem em nós. Não sendo a vida atual mais que um estado transitório, nenhum dos problemas que a ela se relacionam pode ser logicamente resolvido, se negligenciamos levar em conta tudo o que a condiciona ao passado e o objetivo a atingir no futuro. (Págs. 100 e 101)

  1. Antes de tudo, convém desenvolver o sentido moral, ou seja, o sentido elevado da vida, seus deveres e suas responsabilidades, na criança e no adulto, gravando profundamente no pensamento e no coração do ser humano a lei que rege as conseqüências dos atos que praticamos ao longo de nossas existências. (Pág. 101)

  1. A existência revestiria, vista sob esse ângulo, um caráter mais nobre e a dignidade humana se encontraria efetivamente realçada. Somos o que fizemos de nós; nossa sorte, feliz ou desgraçada, está em nossas mãos; tudo o que fazemos recai sobre nós mesmos ao longo do tempo, em forma de alegrias ou de dores. (Pág. 101)

  1. Todos os fluidos impuros causados por nossas paixões, engendrados pelas obras do mal, pelas injustiças cometidas, acumulam-se em silêncio sobre nós. Um dia, quando a medida estiver cheia, a tempestade pode estourar sob a forma de flagelos, de calamidades, fontes de novos sofrimentos, pois os excessos dos gozos levam, fatalmente, a um crescente de dor até que o equilíbrio seja restabelecido na ordem moral, como o é na ordem física. (Pág. 102)

  1. O abuso dos prazeres, o excesso de luxo, o alcoolismo, o deboche se resgatam pelo sofrimento, privações e miséria. Aprendamos a ser sóbrios e comedidos em todas as coisas. Se consagrássemos à educação das massas e à divulgação dos princípios soberanos apenas um quarto das somas que gastamos para as obras de destruição e morte, a face do mundo seria logo modificada. (Págs. 102 e 103)

  1. Ao contrário do Dr. Carton, que propõe em seu livro “La vie sage” que o conhecimento da reencarnação deve ser reservado apenas aos iniciados e oculto do vulgo, Léon Denis diz que devemos oferecer ao povo toda a verdade, tanto mais que ela é indispensável à educação dos seres e à regeneração social. Não há verdadeira moral sem uma crença elevada e sem sanção. A noção das vidas sucessivas mostra-nos a repercussão dos nossos méritos e deméritos sobre o destino humano e constitui a sanção necessária e conforme à justiça. (Págs. 104 e 105)

  1. Na ordem social, é do interesse de todos que a lei moral seja observada, pois ela é a melhor garantia de nossa segurança. Os atos culpáveis, os maus exemplos, os fermentos da maledicência e o ódio que atiramos à Humanidade alteram o presente e comprometem o futuro, como o prova a lei dos renascimentos. (Pág. 105)

  1. É em vão que se procura a felicidade na posse de bens materiais ou nos gozos terrestres que o sopro da morte arrebata. A felicidade está na aceitação feliz, alegre, da lei do trabalho e do progresso, da realização leal da tarefa que a sorte nos impõe, de onde resulta a satisfação da consciência, único bem que podemos encontrar no lado de lá. (Pág. 105)

  1. Os revolucionários violentos, que pretendem fundar a ordem social no sangue e sobre ruínas, não passam de cegos e desgarrados. A harmonia social não pode se estabelecer senão sobre a justiça, a bondade, a solidariedade. O verdadeiro comunismo exige a doação de si mesmo, um sentimento de altruísmo que leve até ao sacrifício, e não foi praticado até aqui senão em agrupamentos religiosos, que se inspiravam em um ideal superior e que, em seus arrebatamentos de fé e de amor, chegavam à renúncia pessoal em proveito da coletividade. Acrescentemos ainda que essa renúncia implicava o esquecimento da família. Ora, a família é a base essencial, o pivô de toda sociedade humana. Um sistema assim não poderia, pois, generalizar-se. (Págs. 106 e 107)

  1. Com o materialismo, a solidariedade não passa de um bem passageiro, efêmero, que liga os homens entre dois nadas. Com os ensinamentos dos Espíritos, esta idéia de solidariedade cresce, reveste-se de uma amplidão, uma autoridade que se impõe. A ascensão coletiva, por força da reencarnação, nos une estreitamente aos nossos companheiros de viagem. Somos, pois, interessados no aperfeiçoamento moral de um meio a que deveremos voltar e, por conseguinte, no aprimoramento dos seres que vivem conosco. (Pág. 107)

  1. A educação das almas e as conseqüências do nosso passado obrigam-nos a renascer em diferentes condições sociais, seja para reparar nossas faltas anteriores, seja para adquirir qualidades inerentes a essas condições. Ninguém eleva a si mesmo senão ajudando os outros a avançar na escala imensa, fazendo penetrar neles os conhecimentos e as qualidades adquiridas. Na longa seqüência de existências percorridas, mil circunstâncias nos levam a entrar em contato com outros seres, a viver sua vida, a participar de seus esforços, de seus trabalhos, de seus prazeres e de suas dores. Diante disso, em que se tornam as mesquinhas rivalidades, o ciúme, os ódios, as miseráveis competições da Terra? (Págs. 107 a 109)

  1. O Espiritismo pode, pois, como vimos, influenciar poderosamente sobre a economia social e a vida pública, porquanto sua concepção da existência e do destino vem facilitar o desenvolvimento de todas as obras da coletividade e da solidariedade. O novo espiritualismo concede às coisas um elemento regenerador. O homem aprende a amar a família e a Pátria, mas passa a ter uma noção mais sublime da grande família humana: a fraternidade das almas, a comunhão de todos na consecução de um mesmo fim, a ascensão lenta e gradual de todos para a luz. (Pág. 111)

  1. A fraternidade é a palavra mágica, o princípio soberano que resolverá todos os problemas sociais, dissipará as iras, os ciúmes, os rancores e que, do caos das paixões, fará surgir um mundo novo. (Pág. 112)

 

  1. Pergunta-se por vezes qual é o fim de tantas vidas obscuras, atormentadas, laboriosas, que constituem a maioria em nosso mundo. Por que tantas dores, dilaceramentos e lágrimas? A vida é um cadinho em que a substância da alma se afina, em que todas as suas partes se fundem sob o fogo das provas e onde se realiza a divina alquimia da sua transformação. É preciso esta lenta purificação dos séculos para fazer da alma primitiva, brutal e selvagem um ser renovado. (Pág. 114)

  1. Há na alma humana uma força divina que a evolução, através dos tempos, faz despertar, preparando-a para tarefas mais altas. É essa a finalidade da vida, de todas as vidas; aí está o papel que incumbe à Terra na cadeia dos mundos. A vida não se cria nem se desenvolve senão através do sofrimento. É preciso sofrer para subir, engrandecer-se, depurar-se, abrir a alma a todas as sensações delicadas. O sofrimento é a lei dos mundos inferiores, lei grave e austera, porém profunda em suas finalidades. Mas a fonte de nossos males reside em nós mesmos. (Págs. 114 e 115)

  1. As almas suficientemente evoluídas, quando deixam a Terra, vão quase todas viver em mundos melhores, enquanto que chegam, sem cessar, a nós, dos planos inferiores, contingentes de almas ainda grosseiras que vêm procurar educar-se na esfera terrestre. Eis por que o nível moral do planeta muda tão lentamente. Herdam-se trabalhos de gerações passadas e não se herdam virtudes que permanecem individuais. Essa, aliás, é a razão por que é preciso trabalhar acima de tudo na educação do povo, se quisermos melhorar a sorte da Humanidade. (Pág. 116)

  1. A reforma do indivíduo deve conduzir à reforma social, de maneira a que tudo triunfe no homem e sobre si mesmo e sobre aqueles que o cercam. É trabalhando pela elevação dos outros que trabalhamos mais eficazmente para elevar a nós mesmos. (Pág. 116)

  1. Notemos, contudo, que a noção de fraternidade não implica a de igualdade. Entre as doutrinas sociais correntes, esta é uma das mais contestadas. Não há igualdade na natureza e igualmente não o há na Humanidade. No Além, os seres são hierarquizados segundo seu grau evolutivo. As teorias revolucionárias, que pretendem tudo nivelar por baixo, cometem ao mesmo tempo um erro monstruoso e um crime. Seria mais conforme à lei universal de progresso estabelecer instituições que contribuam para facilitar a ascensão do homem designando-lhe uma finalidade sempre mais elevada. (Págs. 117 e 118)

  1. É legítimo que todos os homens aspirem ao bem-estar material, tanto quanto às alegrias do espírito e às do coração, mas é sobretudo graças à ação moral que se chegará a melhorar nossas instituições e a aperfeiçoar a ordem social. (Pág. 118)

  1. Em sua juventude, Denis diz ter se interessado pela idéia da constituição das cooperativas operárias de produção e participado de seus trabalhos. Mais tarde, quando se dedicou à propaganda do Espiritismo, dirigiu-se de preferência às massas trabalhadoras. A receptividade foi tão boa que Denis escreveu: “Se se quiser saber quanto pode o Espiritismo sobre o público de trabalhadores, pode-se medir sua vasta extensão entre os mineiros da bacia de Charleroi”. Feita esta observação, ele advertiu: “Ao invés da luta de classes, trabalhemos, pois, em sua fusão preparando os materiais das cidades futuras feitas de justiça e de harmonia. Nisso o Espiritismo nos ajudará em nos ensinando que a condição dos humildes pode se tornar a nossa um dia e que a alma deve renascer em meios diferentes para aí realizar sua educação”. (Págs. 118 e 119)

  1. À medida que o Espírito se ergue na escala dos mundos, a matéria se torna mais sutil, o trabalho mais fácil, as necessidades menos imperiosas. O Espírito penetra então no seio das sociedades mais perfeitas e mais felizes e aí goza de prazeres espirituais reservados às almas purificadas. (Pág. 121)

  1. Toda obra humana, para ser bela, grande, durável, deve ser como um reflexo, como uma imagem reduzida da obra eterna. As instituições, as regras, as leis sociais devem inspirar-se no grande plano geral da ordem do Universo. Ora, é aí que reside o ponto fraco do Socialismo, a causa de seus insucessos, cada vez que ele quer passar teorias e sistemas diversos a uma realização prática, a uma organização viva. É que o Socialismo cuida muito pouco das leis superiores e do fim real da vida, que é uma finalidade de evolução e aperfeiçoamento. Ele se preocupa muito com o corpo material, que é passageiro, e muito pouco com o Espírito, que é imortal. (Pág. 122)

  1. As instituições que não estejam em harmonia com os princípios eternos destinam-se a perecer. O Socialismo deve, pois, antes de tudo, agrupar o conjunto das forças e dos conhecimentos, de maneira a dar um impulso mais vivo à evolução do homem durante sua jornada na Terra. O verdadeiro Socialismo consistiria, assim, em estudar e observar as leis e a harmonia universais, a fim de realizar tanto quanto possível no meio terrestre as qualidades do coração. Só então é que cada indivíduo terá adquirido a saúde perfeita da alma e do corpo e a dominação de si mesmo. Quando a coletividade tiver tomado plena consciência de seus deveres e de sua destinação é que a Humanidade avançará com um passo mais seguro na via do bem. Até lá é preciso esperar por provas e catástrofes, males de toda a sorte, pois existe correlação em todas as coisas, e a desordem dos espíritos leva à desordem da natureza e da sociedade. (Págs. 122 e 123)

  1. Aos que objetam que a massa humana é ainda pouco apta à compreensão das altas verdades, dizemos que a hora das renovações parece que se aproxima. Em meio às vicissitudes de nosso tempo conturbado, fatos significativos se produzem e a despeito dos males do século vê-se manifestar por toda a parte uma vontade de viver, de saber, de progredir, que constitui uma garantia certa da restauração moral e da evolução humana. (Pág. 123)

  1. Jamais no curso da História a solidariedade nas provações e no sofrimento se fez presente de maneira tão intensa. A cruel Grande Guerra abriu muitas almas e a dor se tornou como que uma promessa de renovação. A Terra se prepara para um período de transformação. A multidão imensa das vítimas da Guerra plana acima de nós. Ela não permanece inativa e trabalha de mil maneiras, com o auxílio dos Espíritos superiores, para multiplicar os laços que unem o céu à Terra. Correntes de força, de inspiração, de recursos fluídicos vertem do alto sobre a Humanidade. Uma revelação nova se difunde sobre todos os pontos do globo – revelação poderosa que levará a vida planetária para os horizontes mais esclarecidos da sabedoria e da luz divina. (Págs. 123 e 124)

  1. Do ponto de vista da evolução encontramo-nos em uma esquina brusca após a qual será preciso reencontrar o caminho seguro. Toda sociedade é regida por princípios que, sob a ação do tempo, revestem aspectos novos. Os recentes movimentos políticos são provocados por seres reencarnados que já desempenharam um papel importante nas épocas revolucionárias, seja na França seja no estrangeiro. É preciso, no entanto, reconstituir o prestígio da França por meio de uma direção nova inspirada em um ideal superior. (Pág. 125)

  1. Podemos prever que o Espiritismo, caminhando a par com a ciência, tornar-se-á, no futuro, a base das doutrinas religiosas chamadas a substituir os dogmas envelhecidos, que não mais respondem às necessidades da Humanidade em marcha. (Pág. 126)

  1. Afirmando claramente alinhar-se entre os partidários do Socialismo, Léon Denis faz uma ressalva importante: não aceita o Socialismo sem a doutrina espiritualista, que o tempera, o dulcifica e lhe tira todo o caráter de áspera violência. “Reprovo o Socialismo materialista que só semeia o ódio entre os homens e, por conseguinte, permanece infecundo e destrutivo, como se pode ver na Rússia”, assevera Denis. “Sou evolucionista e não revolucionário.” (Pág. 126)

  1. Um Espírito amigo lhe disse: ”Vossa época tem uma grande importância. Vossos homens políticos em geral não vêem senão o sentido prático e antes material, a razão e o interesse são seus guias, e aí está em grande parte o que constitui a política das esquerdas. Isso, porém, está longe de ser suficiente para assegurar a vida intelectual e moral de uma grande nação”. “É preciso chegar cedo ou tarde às doutrinas espiritualistas para dar a esta política toda a sua grandeza e o seu alcance.” No final da mensagem, o comunicante espiritual acrescentou: “Do Espaço, trabalha-se para dilatar as concepções do homem de direita e a moderar os impulsos dos extremistas. É preciso saber esperar sem muito otimismo e preparar na ordem e na razão a eclosão dos princípios novos”. (Págs. 126 a 128)

  1. A 6 de maio de 1924 um outro Espírito escreveu-lhe: “Para que vossa Terra evolua e o homem possa alcançar um outro planeta, é preciso renunciar às idéias militaristas. Uma nova era psíquica se prepara para vós. Sugestões apropriadas irão se produzir e não haverá outra guerra nos próximos quatro anos”. A primeira medida a tomar, sugeriu o instrutor espiritual, será “reforçar o espírito laico e fazer penetrar na instrução este espírito de beleza que, dulcificando as disciplinas políticas, morais e científicas, criará um impulso para a espiritualidade que não deverá jamais se enfraquecer”. (Págs. 129 e 130)

  1. A 11 de julho do mesmo ano um Espírito falou-lhe do papel da França e da Inglaterra, que poderiam, se quisessem, conjugar seus esforços para comprimir os círculos adversos. Fora preciso pouca coisa para isto, mas mesmo esse pouco era difícil de realizar. É que, segundo o comunicante espiritual, faltava sinceridade à fé inglesa e, na França, o ideal nacionalista não era suficiente. “O que nos impede de agir do Espaço – explicou o comunicante – é que forças postas aí suscitam controvérsias incessantes.” E acrescentou: “Três forças estão, pois, presentes: a força brutal alemã, o ideal incompleto francês, o egoísmo e a lógica puritana inglesa”. Do Alto, disse ele, desejar-se-ia que surgissem na França homens honestos, íntegros, com um ideal formado de amor pelo país e de justiça social. A França os possuía, mas em feixes separados. O ideal espírita deveria crescer, mas, antes que tal se desse, era preciso que a tempestade moral fosse acalmada. (N.R.: A 2a. Guerra Mundial teve início 15 anos depois dessa mensagem e sabe-se que a aventura alemã só foi possível por causa das incertezas e desconfianças que caracterizavam então os governos da França e da Inglaterra, as maiores potências da época.) (Págs. 132 e 133)

  1. As mensagens referidas foram ditadas por Espíritos que haviam desempenhado um papel político importante quando de sua última jornada terrestre. Eram todos republicanos, do mesmo modo que Léon Denis, que entende que à República francesa faltava o ideal superior, a tradição moral que faz a grandeza e a dignidade das nações. Na seqüência ele enaltece a democracia, o único sistema capaz de assegurar a pacificação e a aproximação entre os povos. E menciona então as duas mais antigas repúblicas do mundo: a Suíça e os Estados Unidos que, em suas obras fundamentais, se inspiraram em um ideal sagrado. “O pacto de Grutli e o dos imigrantes de May Flower uniam os contratantes em um laço federal sancionado por uma fé espiritualista e uma prece a Deus”, lembra Denis. (Págs. 133 e 134)

  1. A França, disse ele, teve também horas de idealismo e de espiritualidade. A Declaração dos Direitos do Homem é um testemunho disso, mas ela parecia ter esquecido esse ideal superior que faz o prestígio das obras humanas. A Grande Guerra alterou em muito os caracteres e as consciências e desencadeou apetites, cobiças sem limites. Outrora conheciam-se duas maneiras de fazer face às necessidades: adquirir riquezas ou restringir as necessidades, procedendo com economia. Este último meio caiu, no entanto, em desuso. Quer-se possuir a todo preço. As necessidades se multiplicaram a ponto de tornar a luta pela vida mais áspera, mais tirânica, e o trabalho, a tarefa cotidiana, que se realizava outrora com alegria e bom humor, tornou-se para muitos uma contrariedade, um jugo que se suporta dificilmente. (Pág. 135)

  1. Multiplicar as necessidades fictícias e atiçar os desejos concorrem para a desgraça do ser, não apenas na Terra, mas também na vida do Espaço, porque os desejos do Espírito persistem nele e as privações fazem-se sentir no mundo espiritual, onde a matéria não tem mais império. A ausência das coisas que muito amamos torna-se, então, causa de sofrimento. (Pág. 135)

  1. Para todos esses males, qual será então o remédio? Ele pode ser encontrado em uma renovação do espírito e do coração, ou seja, numa educação que explique ao homem o porquê de sua presença e de sua passagem sobre a Terra. Com efeito, de que serve ao homem conquistar os ares, as águas e todas as forças materiais, se ele não aprende a conhecer, a discernir as finalidades de sua vida? Se o remédio não está em tudo e na Ciência, ele virá pela prova, pois as causas amargas são as mais eficazes para o progresso e a depuração do ser. (Pág. 136)

  1. Vantagens consideráveis em proveito da massa operária resultaram da obra da 3a. República: seguro social, aposentadoria, participação de benefícios em um grande número de indústrias, proteção das cooperativas e da mutualidade sob todas as suas formas. Cursos para aprendizagem da mão-de-obra foram estabelecidos em toda a França. Em 1923 cerca de 1.200.000 trabalhadores foram treinados. (Pág. 137)

  1. O direito de greve, arma do trabalhador contra as pretensões exageradas dos capitalistas, dos capitães da indústria, é uma espécie de faca de dois gumes que se volta às vezes contra aquele que dela se serve e o fere. É então que a ação do Estado pode ser eficaz, não se impondo como árbitro obrigatório, mas fazendo que todos se entendam e busquem, em um espírito de eqüidade, os meios de dar prosseguimento à obra fecunda do trabalho. Em 1922 um total de 679 greves, envolvendo mais de 40 mil trabalhadores, haviam sido arbitradas com sucesso. (Pág. 138)

  1. De outra parte, o cooperativismo alcançou um grande desenvolvimento e tornou-se um recurso precioso para melhorar as condições de existência do trabalhador e de sua família. Em 1920 o número de cooperativas de consumo elevava-se a 4.910, com dois milhões e quinhentos mil cooperados. (Pág. 138)

  1. Foi assim que se viu desenvolver-se, em meio século, a obra social de uma maneira lenta, mas segura e contínua, uma obra de paciência e de longo fôlego, muito mais eficaz em seus efeitos que as revoluções violentas que levam fatalmente a reações não menos violentas. O povo, porém, permanece descontente, a classe operária parece desdenhar a realização gradual dos processos sociais e uma espécie de azedume persiste entre um grande número de pessoas, conquanto a situação material do operário seja, em geral, preferível à da pequena burguesia. Por que isso ocorre? Por que o povo permanece desconfiado e às vezes hostil? (Págs. 138 e 139)

  1. A razão disso talvez seja o fato de ter sido o povo por muito tempo enganado, subestimado e mesmo traído no passado. Ele tornou-se então incrédulo, não apenas a respeito dos dogmas, mas ainda a respeito das promessas eleitorais; contudo, não é cético. O que pede é, antes de tudo, justiça. Há por esse motivo muito que fazer, pois não basta assegurar ao trabalhador o pão e a moradia. O povo não tem apenas necessidades materiais. Ele pede também que se cultivem suas faculdades superiores. É preciso, pois, preocupar-se em dar ao homem uma fé livre e desinteressada que o sustente em suas provas, uma crença racional que lhe permita reagir contra as causas de sua infelicidade. É chegada a hora de substituir o dogma envelhecido por um ideal científico e esclarecido, em harmonia com a evolução humana. (Págs. 139 e 140)

  1. O problema intelectual se relaciona estreitamente com o problema moral. Os dois nos impõem o dever de combater o alcoolismo e todos os vícios que entravam o desenvolvimento das pessoas. É preciso ensinar o homem a respeitar-se, a salvaguardar sua própria dignidade, porque, elevando o nível moral, trabalha-se ao mesmo para resolver todos os problemas difíceis da hora presente. O sentimento de justiça, por sua vez, encontra sua sanção em todos os ensinamentos do Espiritismo. A massa enorme de testemunhas do Além-túmulo prova que esta noção é a própria lei do Universo, a regra suprema dos seres e das coisas. (Pág. 140)

  1. A solução desses problemas não poderá, no entanto, ser completa, satisfatória e definitiva, enquanto um alto pensamento não vier irradiar sobre as inteligências e os corações, enquanto o impulso de solidariedade humana não vier dissipar os mal-entendidos de sentimentos que ainda separam os partidos e as classes. (Pág. 141)

  1. O Socialismo do futuro será o Socialismo espiritualista, pois realizará um ideal baseado no desenvolvimento da mais alta faculdade da alma e só ele poderá dissipar os prejuízos de castas, de raças, de cores, de religiões e fazer nascer um sentimento profundo de fraternidade única. Qual será seu programa de ação num período de lutas que deverá coroar sua obra de regeneração social? Cremos que este programa pode resumir-se como segue: I – Assegurar o pão dos velhos e o abrigo para os trabalhadores esgotados pela idade ou pelas enfermidades. II – Dar à criança o alimento intelectual necessário, isto é, instruí-la quanto aos seus deveres e a grande finalidade da vida, iniciá-la nos princípios que fazem do Universo e do conjunto das existências um todo harmonioso. III – Proteger a mulher contra as fraquezas mórbidas e as seduções funestas, proporcionar-lhe no estado de gravidez o trabalho manual que lhe torne possível a vida familiar e a educação dos filhos. IV – Assegurar a todos uma parte do bem-estar proporcional à tarefa realizada e aos serviços prestados na obra social. V – Tornar acessíveis a toda alma humana os ensinamentos, as consolações, as luzes que proporcionam o culto do bem e do belo, em suas formas diversas: arte, literatura, poesia, tudo quanto constitua um meio de elevação, moralização e aperfeiçoamento, tudo que seja eficaz para apagar na alma as manchas do passado, tudo que prepare o ser para suas destinações reais. VI – Em uma palavra: proporcionar ao ser humano o que ele veio cobrar da existência, isto é, segundo a lei de evolução, um degrau para subir mais alto na hierarquia das almas, o desenvolvimento das qualidades do espírito e do coração. (Págs. 142 e 143)

  1. Respondendo a diversas questões atinentes ao tema deste livro, Léon Denis fez observações interessantes, que a seguir resumimos: I – Os socialistas quando estão investidos no poder nem sempre podem fazer o que desejariam e são obrigados, muitas vezes, a contemporizar. II – O Socialismo age pela força mesma das coisas e reconhece que o capital é necessário para a realização dos grandes trabalhos e o prosseguimento das atividades do governo. III – Seu objetivo essencial será, pois, uma repartição mais eqüitativa e mais igualitária da riqueza entre os diversos elementos da produção. IV – Os excessos provenientes do mau uso da força financeira podem ser sempre reprimidos por leis, quando ele assumir o poder. V – A experiência demonstrou que o Estado é muitas vezes um mau explorador, um produtor oneroso. As exigências dos trabalhadores que ele emprega elevam o preço de revenda do produto a cifras que tornam a exportação impossível. VI – Os outros Estados que têm à sua guarda um regime de liberdade, como os Estados Unidos, mantêm uma supremacia sobre todos os mercados e suas vantagens são tais, que eles jamais sonharão em adotar os métodos do estatismo. VII – A ordem social deve, portanto, comportar a liberdade de associação, mantendo um justo equilíbrio entre seus agrupamentos de força e opondo-se às usurpações de uns pelos outros, velando cada qual por seus próprios interesses. VIII – Na ordem econômica, a solução do problema está na associação do capital, motor indispensável de toda empresa, da inteligência diretiva e da mão-de-obra que ela ocupa. Aí, como em todas as coisas, a eqüidade deve presidir à repartição dos bens. IX – Certas indústrias inglesas e americanas criaram uma espécie de participação do operário a uma parte do capital que ele adquire pondo em obra uma parte de sua economia, completada pela empresa na proporção do tempo e do serviço realizado. Outras companhias criaram as “ações de trabalho”, que vêm juntar-se aos salários dos trabalhadores especializados, de modo que eles se tornam co-proprietários. X – A experiência mostra que estes sistemas são preferíveis à simples participação dos benefícios, pois que asseguram uma repartição mais justa nos lucros e nas perdas. (Págs. 143 a 147)

  1. Léon Denis criticou a lei que estabeleceu a jornada de oito horas, dizendo que em certos casos ela produziu verdadeiros abusos. As companhias de estrada de ferro, por exemplo, tiveram que aumentar seu pessoal em proporções que ocasionaram despesas excessivas, e as tarifas subiram muito. Ele sugeriu então que houvesse, no tocante a esse assunto, liberdade de trabalho, porque o operário já dispunha, em seu sindicato, de armas para defender seus direitos. A lei das oito horas tinha sofrido tantas derrogações que lhe parecia fadada a ser revogada. (N.R.: As opiniões de Léon Denis quanto a esse assunto foram um equívoco que em nada prejudica o valor de sua obra. A propósito, é bom lembrar que até em Nosso Lar, a colônia espiritual descrita por André Luiz, a jornada de 8 horas é lei que vale para todos.) (Págs. 147 e 148)

  1. Concluindo o livro, Denis voltou a afirmar que o Socialismo não deve confinar-se ao realismo de curta vida e desconhecer a importância do fator moral na solução dos problemas que ele pretende resolver. Como poderoso meio de propaganda e de realização de todas as idéias grandes, generosas e humanitárias, o Espiritismo oferece ao Socialismo uma base e uma sanção demonstrando que os princípios de solidariedade, fraternidade e justiça, que constituem sua própria essência, encontram-se nas leis universais e são a regra dos mundos superiores. No próprio seio do partido socialista surgirão, um dia, homens dotados pela palavra e pela pena que encontrarão na doutrina espírita os argumentos decisivos em favor de sua causa. O estudo do Espiritismo mostrar-lhes-á, então, a solidariedade que os liga à Humanidade invisível como duas partes de um mesmo todo, e lhes revelará que as condições de vida no Além – que são as conseqüências de nossos atos – são regidas pelo princípio de soberana justiça e que é necessário conhecê-lo para estabelecer sobre a Terra leis e instituições sociais sábias e harmônicas. (Págs. 148 e 149)

Londrina, 18-3-2001

Astolfo O. de Oliveira Filho

                                 Socialismo e Espiritismo