COMERAM A MAÇÃ – Richard Simonetti

COMERAM A MAÇÃProfessora:
– Que pecado cometeram Adão e Eva?
Adolescentes, em coro:
– Comeram a maçã…
– O que querem dizer?
Sorrisos maliciosos…
– Ninguém sabe?
Alguém:
– Transaram no paraíso!
Risos…
– Quem foi o atrevido?
Mais risos…
Fim da aula.

***

Pois é, amigo leitor, já não se faz alunos como antigamente.
São uns abusados.
A moçada é dotada de uma audácia que transborda em atrevimento.
Atrevimento e… ignorância!
Qualquer pessoa medianamente informada sabe que o pecado cometido por Adão e Eva não foi de ordem sexual.
Não há a maçã no texto bíblico.
O casal provou, indevidamente, o fruto da árvore da ciência do Bem e do mal.
Poderiam até “transar” no paraíso, desde que jamais ousassem buscar o conhecimento.
Se apreciarmos o Gênesis em seu sentido literal, concluiremos que Deus privilegia a ignorância.
Imaginemos um pai, ordenando a seu filho:
– Enquanto permaneceres bronco e analfabeto terás tudo em minha casa. Atreve-te a exercitar os miolos e imediatamente te expulsarei!
Coisa de troglodita!
Não obstante, o texto bíblico faz sentido quando o situamos por sugestiva alegoria.
Como foi demonstrado por Darwin, o Homem é fruto da evolução dos seres vivos que, em lenta progressão, a estender-se ao longo de milhões de anos, atingiram a complexidade necessária para ensaiar o pensamento.
Enquanto espécie inferior, nos domínios da irracionalidade, era orientado pelo instinto.
Permanecia integrado na Natureza.
A partir do momento em que símios antropoides desceram das árvores e experimentaram vislumbres de consciência, iniciando-se nos domínios do pensamento contínuo, começou a grande aventura humana.
Aqueles seres primitivos, até então contidos nos limites impostos pela inconsciência, ensaiavam sua própria orientação.
Exercitando o livre arbítrio, deixavam o “paraíso” e se aventuravam pelos pomares da Vida, colhendo o conhecimento nas árvores da experiência.
Não mais meras criaturas, mas filhos de Deus, em busca de sua gloriosa destinação.

***

É bastante significativo o castigo imposto a Adão.
Ganhar o pão de cada dia com o suor do rosto.
Até então, a Mãe Natureza provia suas necessidades.
Agora, ele passava a depender de sua própria iniciativa.
Embora não concorde o indolente, esse “castigo” situa-se como uma bênção.
O trabalho é lei da vida, um notável instrumento de progresso instituído pela sabedoria divina, a favorecer o desenvolvimento de nossas potencialidades.
O trabalhador não apenas garante a subsistência, como disciplina o pensamento, assimila conhecimento e aprimora a inteligência.
Entre o bruto das cavernas, de parcas possibilidades intelectuais e o homem atual, capaz de desvendar os mistérios do Universo, há um ingrediente mágico que operou a notável evolução – o trabalho.
Se soubesse disso, a professora não se ofenderia com a petulância da classe.
E deveria conhecer o elementar:

O melhor recurso para lidar com a ignorância atrevida é impor-lhe o “castigo” de aprender.