X-Men – O “antagonismo” de Malcolm X e Martin Luther King nas HQs

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Martin Luther King Jr e Malcolm X


Histórias em quadrinhos para pensar sobre
os negros, mas onde eles estão?

Criiados em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby, os X-Men são mutantes, pessoas que são temidas e odiadas por nascerem “diferentes”. Os diferentes, que os autores mimetizaram com super poderes, na realidade eram os negros, desprezados, explorados, oprimidos, negligenciados, assassinados… por nascerem “diferentes” daqueles que compunham (leia-se compõe) a elite dominante. Nos E.U.A, país onde foi criada a HQ, a luta por Direitos Civis ganhava projeção internacional e criava ícones como Malcolm X e Martin Luther King, dois homens com propósitos similares e discursos distintos para alcançá-los. Desta forma os autores criaram seus protagonistas inspirados nestes homens, Xavier, o pacifista e Magneto, o bélico.

No mundo da imaginação havia espaço para representar uma ideia, só que não havia espaço para representar os negros entre os mutantes e super-heróis. Somente em 1966 surgiria o primeiro super-herói negro, o Pantera Negra (um príncipe guerreiro africano, diga-se de passagem), enquanto que entre os mutantes Tempestade (outra personagem africana) surgiu em 1975, 12 anos após o lançamento da revista.

Malcolm e Martin são representações de grupos diferentes entre os negros estadunidenses, mas igualmente relevantes, trajetórias paradoxais que levaram à luta pelos direitos dos negros.
MAGNETO – Defende que a única maneira
de proteger os mutantes é separá-los dos
humanos, não importam os meios  necessários.
Prof. Xavier – Alimenta o sonho de
coexistência pacífica entre humanos
e mutantes. Líder e tutor dos X-Men.
 A infância violenta e violentada de Malcolm Little começa com o assassinato brutal do pai (um ativista do movimento negro) por membros da Ku Klux Klan e na vida da mãe, filha do estupro de sua mãe negra por um homem branco. Apesar das claras evidências de assassinato, a morte de Earl Little foi registrada como suicídio, deixando Louise Little e seus oito filhos sem direito ao seguro, o que os levou à situação de miséria. O governo internou sua mãe em um hospício e espalhou os filhos por lares adotivos.

A juventude entre a boemia e o crime levou-o à prisão. O paralelo criado nos quadrinhos, Magneto, foi o único Sobrevivente de sua família em um campo de concentração nazista durante a 2ª Guerra Mundial. Após fugir do campo de concentração com Magda, reconstruiu sua vida e teve uma filha, que foi queimada viva dentro de sua casa, sem que nenhum vizinho ajudasse, por saberem que eram judeus. O trauma despertou os poderes de Erik Lehnsherr, que matou todos os que presenciaram o crime. A casa de Malcolm também fora queimada na infância, como tentativa de intimidar o ativismo do pai, e depois, já adulto, como meio de intimidá-lo.
 Os elos entre os dois líderes negros começam na prisão de Malcolm X, quando ele se converte ao Islamismo, centrando sua nova vida a partir da religião, tal como Martin Luther King fizera toda vida. Filho de pastor da igreja batista, Martin Luther King Jr. aprendeu com o pai desde cedo a utilizar o dom da palavra, à frente do movimento pelo direito dos afro-americanos em Atlanta. Encorajado a seguir os passos do pai, Martin foi profundamente influenciado pela resistência pacífica liderada por Mahatma Gandhi na Índia. A prisão de Rosa Parks em 1955, por se recusar a ceder lugar no ônibus à uma mulher branca, levou Luther King Jr. a defender o boicote aos transportes em Atlanta, o que o levou à prisão, mas depois de um ano a vitória do movimento trouxe notoriedade à voz do pastor de Atlanta.

Coincidência ou não (prefiro “ou não”), os X-Men e a personagem Professor Xavier aparecem pela primeira vez em X-men #1, lançada em setembro de 1963, mês seguinte ao famoso discurso de Martin Luther King Jr.: I have a dream (Clique aqui para ler). O líder dos X-Men é o referencial de King Jr. nas histórias em quadrinhos, filho de família aristocrata recebeu ótima educação e desenvolveu seu dom telepático ao mesmo tempo em que elaborava seus ideais de convivência pacífica. A paralisia de Xavier pode ser encarada como um símbolo do princípio de resistência não violenta.

Malcolm X e Meto, marcados pela violência, defendem que seus iguais utilizem qualquer meio necessário para garantir sua segurança e direitos. Por diversas vezes Malcolm foi questionado por estimular um suposto comportamento violento dos negros, que aumentaria as tensões “raciais”. A realidade é que a população branca em geral o considerava um terrorista, um extremista, e essa perspectiva se torna evidente nesta comparação com Magneto, um homem que no decorrer das décadas matou milhares de pessoas.Talvez o número de autores que tenham trabalhado com as personagens Professor Xavier e Magneto tenha ultrapassado as centenas, cada qual desenvolvendo estas personagens a partir de sua perspectiva de mundo, muitas vezes ignorando os homens nos quais foram inspirados.

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No cinema, as personagens Prof. Xavier e Magneto, foram interpretadas por Patrick Stewart e Ian Mckellen respectivamente.

Em tempos de guerra civil não declarada na cidade de São Paulo, vale ressaltar um aspecto importante da história destes homens. O genocídio dos jovens  nas periferias (em sua maioria negros) extrapola a “guerra ao tráfico”, configurando os autos de resistência seguida de morte como verdadeiros argumentos aos homicídios perpetrados pela polícia.  Ambos foram presos, embora por motivos completamente diferentes, e saíram da prisão para ocupar seus lugares na história do movimento negro.
Martin foi preso em decorrência dos protestos contra os meios de transporte em Atlanta, enquanto que Malcolm fora condenado a 10 anos por diversos assaltos (apesar de ser réu primário).
Em meio ao caos e violência da megalópole paulista, encontramos milhares que defendem as práticas de extermínio adotada pela polícia (Leia a reportagem: Ex-coronel da Rota, responsável por 36 mortes, é indicado à comissão de Direitos Humanos), com o slogan “bandido bom é bandido morto”, ignorando o fato de que inocentes são assassinados todos os dias e privando os demais de qualquer possibilidade de recuperação, uma triste realidade que não muda o panorama geral de violência e segregação. Estes homens estiveram trancafiados, assim como Nelson Mandela, Marighella, Gandhi… Os autos de resistência seguida de morte assinados todos os dias matam mais do que criminosos, assassinos e traficantes, matam o que eles poderiam ser, eliminam o que eles poderiam fazer.
Se um homem negro reage, ele é um extremista. Como se ele devesse ficar passivo e amar seu inimigo mesmo que seja atacado. Mas se ele se levanta e tenta se defender, então ele é chamado de extremista.” Malcolm X

“Tem coisas em nosso mundo em que eu tenho orgulho de ser mal ajustado. (…) Eu preciso falar honestamente com você, nunca tive a intenção de me ajustar com a segregação racial ou a descriminação, com fanatismos religiosos, às condições econômicas que usam das necessidades de muitos para dar luxo a poucos.” Martin Luther King Jr.
Discursos de  Malcolm X e Martin Luther King Jr apresentando o cerne de suas ideias.

Por Caio Ferraro