BUDISMO E ESPIRITISMO – “Uma Breve Comparação” – PARTE 2

budismo-e-espiritismo1

 III – Questões Filosóficas

Objetivos

– Budismo

        “Segundo o Budismo, é o homem que traça a rota do seu próprio destino. Assim, Gautama Buda, exortava seus discípulos a que eles mesmos fossem seus próprios refúgios, ou ajudas. Estimulava em cada um o autodesenvolver-se, porque, mediante seu próprio esforço e dedicação, o homem tem em suas mãos o poder de libertar-se da escravidão, da ignorância e de todo o sofrimento” (cap. “Budismo como Ciência, Moral e Filosofia”, Budismo, Psicologia do Autoconhecimento).

    O Budismo busca a transformação do ser através da destruição da ilusão do “eu”, superação da ignorância. Compaixão e sabedoria como resultadas da destruição total do egoísmo. Libertação do sofrimento encerrando-se o ciclo de causa e efeito através do desapego ao resultado das ações, fim do “eu” e do “meu”(sem que isso signifique exatamente extinção total do ser);     Na escola Mahayana, uma grande ênfase é dada ao ideal do Bodhisattva. O Bodhisattava é o ser que já atingiu todas as condições para a libertação final, para o Nirvana, porém prefere manter-se em contato com este mundo a fim de auxiliar na libertação dos demais seres. O voto do aspirante ao Bodhisattva é justamente de buscar o despertar em beneficio de todos.

– Espiritismo

        “O objetivo essencial do Espiritismo é melhorar os homens, no que concerne ao seu progresso moral e intelectual Máxima extraída do ensinamento dos espíritos, Allan Kardec, O Espiritismo em sua mais simples expressão”. “É assim que, pela prática do Espiritismo e com as instruções dos Espíritos elevados, pode o homem adquirir essa preciosa ciência da vida: a disciplina das emoções e das sensações, o domínio de si mesmo, essa arte profunda de se observar e, depois, de se assenhorear dos secretos impulsos de seu próprio ser”. Léon Denis, Aplicação Moral e Frutos do Espiritismo, No Invisível – FEB.

    O Espiritismo busca a transformação do ser através de sua reforma moral, com a superação do egoísmo e o desenvolvimento de virtudes como a caridade e a sabedoria. Pela palavra “caridade” entende-se, na Doutrina Espírita, o amor ao próximo em sua expressão mais sublime, já a palavra “sabedoria” significa o uso ético dos conhecimentos adquiridos, inclusive das leis universais, como a de causa e efeito. Como consequência do progresso espiritual resultante, há a libertação do sofrimento e o fim da necessidade do espírito reencarnar-se, por não necessitar mais do aprendizado proporcionado pelo ciclo de reencarnações.    Assim descreve Kardec as características dos espíritos que atingiram esse estágio de progresso:

    Espíritos Puros: “Percorreram todos os graus da escala e se despojaram de todas as impurezas da matéria. Havendo atingido a soma de perfeições a que a criatura é suscetível, não têm mais a sofrer nem provas, nem expiações. Não estando mais sujeitos à reencarnação nos corpos perecíveis, vivem a vida eterna que desfrutam no seio de Deus” (cap. Dos Espíritos, O Livro dos Espíritos, Allan Kardec).

– Análise

    O resultado da correta prática do Budismo leva aos mesmos resultados da prática da Doutrina Espírita. Os dois caminhos espirituais resultam na libertação do sofrimento, pelo fim do apego ao mundo material e ao “eu” egoísta. O “Iluminado” Budista corresponde ao conceito de “Espírito Puro” dos Espíritas.

    É muito importante notar que as palavras “compaixão” para os Budistas e “caridade” para os espíritas, tem sentido mais amplo que o empregado na conversação cotidiana. A compaixão budista, longe de ser um sentimento de piedade, é o interesse profundo e amoroso pelo destino de todos os seres e se reflete na ação de ajuda-los a encontrar seu caminho de iluminação. A caridade espírita, também está longe de ser a esmola ou simplesmente a ajuda material, é o amor fraterno em ação, representando tanto o interesse pelo bem-estar do próximo, como o desejo mais profundo de auxilia-lo na busca da verdadeira felicidade.

    Ambos, compaixão e caridade, nascem no ser a partir da compreensão de que somos mais do que um corpo material, de que estamos ligados a todos os seres e compartilhamos o mesmo destino. A felicidade, a libertação do sofrimento, é o objetivo de todas as criaturas e trabalhar em prol deste objetivo, auxiliando a todos, a meta mais nobre a que o ser pode almejar.

A questão da Causa Primeira

– Budismo

        “Certa vez, na floresta Simsapa do Kosambi (perto de Allahabad), pegando algumas folhas na mão, perguntou aos discípulos: – Que pensais bhikkhus”? Quais as mais numerosas? Essas poucas folhas na minha mão, ou as que estão na floresta?

        – Senhor, certamente as folhas da floresta são muito mais numerosas!
– Da mesma forma, bhikkus, do que sei não disse tudo e o que não divulguei é muito mais. E por que eu não lhes disse? E por que eu não lhes disse? “Porque isto não é útil e não conduz ao Nirvana” (Samyutta-Nikaya).(…) Buda explicou a Malunkyaputra que a vida espiritual não depende de opiniões metafísicas. Qualquer que seja a opinião sobre estes problemas, existe sempre o nascimento, a velhice, a decrepitude, a morte, a desgraça, as lamentações, a dor, a angústia – “logo, declaro: a cessação de tudo isto é o Nirvana ainda nesta vida”.

        – Por conseguinte, Malunkyaputra, considere explicado o que expliquei, e o que não expliquei como não explicado. Não esclareci se o universo é eterno, ou não e etc., etc., porque não é útil e não está fundamentalmente relacionado com a vida espiritual, não conduzindo ao desapego, à cessação, à tranquilidade, à penetração profunda, à realização, ao Nirvana. Estes são os motivos pelos quais não falei. Que foi que expliquei? Expliquei a existência do sofrimento, o aparecimento ou a origem do sofrimento, a cessação do sofrimento e o caminho que conduz à cessação do sofrimento. E por que expliquei isto? “Porque é útil e está fundamentalmente relacionado à vida espiritual que conduz ao desapego, à cessação, à tranquilidade, à penetração profunda, à libertação, ao Nirvana”. Trechos do cap. “Contra Especulações Metafísicas”, Budismo, Psicologia do Autoconhecimento

    O Budismo não vê objetivos práticos nas questões envolvendo a origem do Universo e sua Causa Primeira. Considera que a essência do ser é eterna e que a questão se há uma “Causa Primeira” ou um criador não são importantes para seu destino. Assim, não acredita em um “Deus Pessoal” e afirma que o destino do ser depende única e exclusivamente de seus atos e da lei de causa e efeito.

    O problema de como o ser entrou no circulo de causa e efeito não lhe interessa, mas sim como libertar-se dele. Todos os seres (animais, vegetais, homens, “deuses”, etc…), tem a mesma “essência”, todos com a mesma capacidade de iluminar-se e o mesmo desejo de libertar-se do sofrimento.

– Espiritismo

        “Que é Deus? Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas” Questão nº 1, O Livro dos Espíritos “A ordem universal reinante na Natureza, a inteligência revelada na construção dos seres, a sabedoria espalhada em todo o conjunto, qual uma aurora luminosa e, sobretudo, a universidade do plano geral regida pela harmoniosa lei da perfectibilidade constante, apresenta-nos, já agora, a onipotência divina como sustentáculo invisível da Natureza, lei organizadora, força essencial, da qual derivam todas as forças físicas, como outras tantas manifestações particulares suas.

        Podemos, assim, encarar Deus, como um pensamento imanente, residente inatacável na essência mesma das coisas, sustentando e organizando, ele mesmo, as mais humildes criaturas, tanto quanto os mais vastos sistemas solares, de vez que as leis da Natureza não mais seriam concebíveis fora desse pensamento, antes são dele eterna expressão”. cap. Deus, Deus na Natureza, Camille Flammarion.

    A concepção espírita sobre o Universo, sua metafísica, tem raízes cristãs, sua base é Deus, “Causa Primeira” de todas as coisas e de todas as leis morais e físicas que regem a criação. A lei de Causa e Efeito faz parte do ordenamento moral do Universo, cujo objetivo é o progresso do ser. O espírito, individualização do princípio inteligente, começa da forma mais simples e, conduzido por ela, evolui até a perfeição relativa [1].

– Análise

    Curiosamente a posição de Buda em não incentivar a especulação sobre as origens do universo e a natureza de uma causa primária, não é muito diferente da apresentada pelos Espíritos que orientaram a Codificação Espírita. Quanto Kardec procurou aprofundar as questões sobre a natureza de Deus, estes lhe responderam que há coisas que escapam a nossa compreensão atual e que não nos faria melhores o fato de especularmos a respeito, pelo contrário, poderia nos induzir ao orgulho, levando-nos a tomar nossas hipóteses por conhecimentos que efetivamente não temos:

    “(…) Deus existe, não se pode duvidar, isto é essencial. Creiam-me, pois ir mais além seria lançar-se num labirinto de onde não se poderia sair. Este conhecimento não os tornaria melhores, mais porventura mais orgulhosos, porque acreditariam saber o que na realidade não sabem. Deixem, portanto, de lado todos esses sistemas e teorias; há muitas coisas que cabe aos homens desembaraçar-se. Isto lhes será mais útil do que pretender penetrar no que é impenetrável”.  Resposta a questão 14 do Livro dos Espíritos (da tradução de Sandra R. Keppler para a editora Mundo Maior).

    A principal diferença entre o Budismo e o Espiritismo está na importância que dão a questão sobre a existência de Deus, ou, em outras palavras, ao reconhecimento de uma “Causa Primeira” de todas as coisas.

    Para o Espiritismo o “problema do ser, do destino e da dor” – o “porquê da vida” – está intrinsicamente ligado a resposta para esta questão. Na filosofia espírita o ciclo de encarnações – o samsara dos Budistas – nada mais é que um recurso didático na longa jornada evolutiva do espírito.

   É a existência da inteligência suprema, da Causa Primeira, que explica porque há uma direcionalidade nas leis morais universais, sempre no sentido de progresso – da brutalidade para a angelitude, da ignorância para a sabedoria, do mal para o bem. As próprias leis materiais são parte disto também, criando o cenário onde o espírito exercita suas faculdades e progride rumo a libertação da ignorância e do sofrimento.

    Deus, sábio e justo, atua no Universo através de leis universais. Sua essência nos é desconhecida, mas sabemos que é em última análise a realidade suprema, que tudo mantém. A concepção espírita, que pode ser classificada como de um “Deus Pessoal” [2], defende que somos nós mesmos que construímos nosso destino, através dos nossos atos, mas também postula que Deus, por ser “amor”, sempre nos abre caminhos para o progresso. Somos livres para trilha-los, assim não nos isenta da responsabilidade de nossas escolhas.

1 – Me parece que é correto dizer que Deus é o “limite” desta evolução, no sentido matemático, por ser infinito em perfeição. O ser sempre tenderá a ele, mas jamais o igualará.

2 – “Quanto à visão do Deus Pessoal e Impessoal, é preciso não esquecer que são posições humanas relativas à capacidade que temos hoje de entender a Divindade, mas que, em realidade, nada dizem sobre ela realmente. Acho que a Impessoalidade e a Pessoalidade são aspectos derivados da posição que adotamos. Em realidade, à Impessoalidade somos conduzidos pela transcendência divina, e à Pessoalidade somos induzido pela imanência. Se oramos, nos relacionamos pessoalmente com o Divino, mas quando dizemos quando erguemos os olhos para o infinito, a Impessoalidade nos acorre. Como você pode verificar mesmo considerando a Impessoalidade há  um poder de criação. Se há criação, há momentos criativos.” Elzio Ferreira de Souza, comentando um esboço deste artigo e me explicando o que realmente significa o conceito de “Deus Pessoal”. Foi justamente nesta questão conceitual, do que significa a crença em “Deus Pessoal”, em contraposição a concepção Budista, de não aceitar um “Deus Pessoal”, que encontrei os maiores obstáculos.

O homem em sua essência

– Budismo

    A percepção que o homem tem de si mesmo, como de um individuo distinto dos demais e com uma individualidade permanente, é uma ilusão. O que entendemos como nosso “eu” é na realidade um conjunto de circunstâncias e de agregados temporários que, na ignorância, tomamos por um todo único. Estes componentes, conhecidos tecnicamente no Budismo como “skandas”, são cinco:

    – O corpo;
– Os sentimentos;
– As percepções;
– Os impulsos e emoções;
– Os atos de consciência;

    A combinação destes fatores se dá através das leis de causa e efeito e eles ocorrem não só no mundo material, como também nos mundos espirituais. O corpo sutil, espiritual, também é temporário e, do mesmo modo que o físico, um elemento sujeito as vicissitudes da lei de causa e efeito. O individuo, portanto, em sua essência, não corresponde a uma entidade isolada, eterna, mas pode-se falar de uma consciência individual – sem uma base física, como a entendemos – que é o sujeito da lei de causa e efeito e, este sim, eterno. Matthieu Ricard – no livro “O Monge e o Filósofo” – se refere a esta consciência individual como um “fluxo de consciência”. A este fluxo de consciência, como resultado de suas ações se agregam os cinco “skandas”, resultando no ser material ou espiritual. A libertação espiritual é descrita por Matthieu como a purificação deste fluxo até o ponto de sua pureza máxima.

    O ser que atinge a iluminação no Budismo, pelo menos no Tibetano, não deixa de existir, mas sua existência não está mais sujeita ao ciclo de reencarnações ou presa as leis de causa e efeito [1 ]. Completamente livre de todos os fatores que o prendem a um corpo perecível, seja nos mundos materiais, seja nos mundos sutis – pois o Budismo também reconhece diferentes níveis de existência – ele goza de uma paz absoluta e da compreensão total do Universo. Sua “consciência” continua a existir – consciente de si mesma – mas sem a ilusão de que é algo independente de todas as outras consciências ou do Universo.

    “O espírito junta-se então ao próprio espírito do Buda, essa substância chamada espírito sutil, sem começo nem fim, independente do corpo e do cérebro, e sem duvida a verdadeira causa da consciência. Esse espírito sutil que se manifesta finalmente livre de todo apego, eliminou totalmente os obstáculos que se opunham à visão ‘da última natureza de toda a existência’ (…)”.

    “- Aliás – diz o Dalai Lama – Buda jamais falou do nirvana. Sim, ele indicou uma libertação dos renascimentos (o que só torna a noção compreensível para um ocidental  se ele admitir como fato o encadeamento das transmigrações, o samsara), mas suas indicações param por aí. Daí uma multiplicidade de interpretações. Você me pergunta o que é o nirvana. Eu lhe respondo; uma certa qualidade do espírito “.  (trechos do cap. “Para uma ciência do Espírito”, A Força do Budismo).

– Espiritismo

    O homem é composto do corpo material, de um corpo sutil ou fluídico denominado pelo Espiritismo de “períspirito” e do principio inteligente, denominado espírito. A essência do espírito é desconhecida para nós, por nos faltarem conceitos e percepções suficientes para entendê-lo.

    O Espírito é criado por Deus simples e ignorante [2], ao longo de sua evolução se utiliza do “períspirito”, para poder atuar nos mundos materiais, que lhe servem de estágio para o aprendizado e exercício de suas capacidades. O períspirito se modifica conforme o nível de evolução do ser e do mundo em que se encontra. O períspirito desempenha papel importante como intermediário entre o espírito e a matéria, sendo determinante na formação do corpo físico quando do processo de reencarnação (interferindo, selecionando, dirigindo, complementando o código genético).

– Análise

        “O fluxo de consciência é uma sorte de metáfora não distante daquela outra: o Espírito é uma centelha” Elzio Ferreira de Souza,  trecho de e-mail sobre a questão da essência do ser.

    A questão do ser humano em sua essência é bastante difícil de ser analisado, o Budismo procura desvincular a essência do ser de um ente individual e chega a imagens bastante abstratas. A melhor comparação que vi, foi a de considerar o ser como uma “onda de consciência” no infinito. Tal qual as ondas de luz, que sem um suporte material individual, assim mesmo se propagam por seus caminhos próprios no imenso oceano eletromagnético que é o espaço. Esta “onda de consciência” – elo não material que liga todas as existências do ser, dando consistência a uma lei de causa de efeito – é que serve de “guia” a combinação dos componentes que formam o ser, resultando em um corpo sutil e, quando necessário, um corpo material. Ela é a base dos sentimentos, das emoções e até do pensamento. Difícil dizer exatamente quais são seus atributos, principalmente depois de atingido o Nirvana, mas me parece que se poderia dizer que é a inteligência pura, o espírito em seu estado mais abstrato.

    Vale lembrar que para os espíritas, a palavra “espírito” significa o “elemento inteligente” do ser, ou seja, a essência mesma, a qual se agregam, para sua jornada evolutiva, o corpo espiritual – o períspirito – e o corpo físico. No Livro dos Espíritos, o espírito é descrito como a individualização do principio inteligente e, portanto é o que retém, em última instância, a individualidade do ser. Um espírito puro é esta individualidade em seu grau de perfeição e pureza máximas.

     Do mesmo modo que não é possível descrever-se exatamente o que é o ser após ter atingido sua Iluminação, também não há como descrever o que é o espírito:

    ” O Espírito não é fácil de analisar em sua linguagem. Para os homens não é nada, porque o Espírito não é algo palpável; mas para nós, é alguma coisa. Saibam-no bem, nenhuma coisa é o nada, e o nada não existe “. (resposta a questão 23a, O Livro dos Espíritos)

1 – “(…) Os seguidores do Vaibhashika, entendem,  portanto o nirvana final em termos da total cessação do indivíduo. Deduz-se que, quando o Nirvana final é atingido, o ser individual deixa de existir.

        Essa opinião não é aceita por muitas outras escolas budistas. Há, por exemplo, uma objeção muito conhecida, de autoria de Nagarjuna, que sustenta ser a consequência lógica da doutrina Vaibhashika a de que ninguém atinge o Nirvana, porque o indivíduo deixa de existir quando alcança o Nirvana. Portanto, esse posicionamento é absurdo. (…)”   (cap. “A Transformação através do altruísmo”, Transformando a Mente, XIV Dalai Lama)

2 – “Simples e ignorante, o que seria isto? A mim, parece-me que é o ponto inicial da carreira do Espirito no reino hominal, ou seja, o estágio do ser no momento em que atinge o processo de hominização. Poderíamos também dizer que é o momento em que ele alcança o livre-arbítrio e descobre-se responsável: na linguagem bíblica, descobre a própria nudez. (…) Outras questões, entre as quais a 540, dá outra noção do Espírito do ponto de vista da substância. O simples e ignorância é referência ética.” Elzio Ferreira de Souza, comentando em e-mail o uso desta expressão no artigo.

    Na atualidade, os espíritas admitem que o princípio inteligente evolui a partir das formas mais simples de existência. Nestas formas rudimentares ele começa a aprender a se relacionar com a matéria e aos poucos vai assenhorando-se da capacidade de organizar corpos mas complexos, começa talvez pelas bactérias e seres unicelulares; de seres unicelulares progride aos vegetais; dos vegetais aos primeiros animais; destes animais simples aos animais superiores, dotados de instintos desenvolvidos e rudimentos de inteligência; dos animais mais inteligentes aos primatas ancestrais do homem; dos primatas ao homem moderno. Milênios infindáveis de evolução, nos dois planos de existência – material e espiritual – e em quantos mundos forem necessários.

    Durante esta evolução o desenvolvimento do períspirito acompanha a complexidade dos organismos, influenciando o processo de reencarnação e sendo por ele influenciado. É um dos mecanismos por detrás do processo de seleção natural e de evolução das espécies, estudado pelo seu lado puramente material por Charles Darwin.

    O livro “The Origin of the Species”, de Darwin, que consagrou cientificamente a teoria da evolução biológica das espécies, foi publicado em novembro de 1859, depois do “O Livro dos Espíritos” e provocou um grande abalo na opinião publica. A resistência enfrentada pelas novas teorias, principalmente no tocante a descendência biológica do homem a partir dos primatas, permite entender a cautela com que os Espíritos trataram a questão da evolução espiritual na época de Kardec.  Assim restringiram-se a detalhar o progresso do Espírito a partir do momento em que, atingido o estágio humano, ele sem maiores conhecimentos do bem e do mal – simples e ignorante – começa a exercer escolhas que determinaram seu passo rumo ao futuro.

    Desta maneira, a expressão “simples e ignorante” pode assim ser entendida, como comentou o Elzio, como uma descrição qualitativa do estado do espírito no início do seu processo de desenvolvimento humano, quando cruzou a fronteira entre o animal e o homem.  Também pode ser entendido, e neste sentido utilizei no texto, como o “simples” das formas primitivas de vida e o “ignorante” da ausência completa de qualquer sofisticação da inteligência – seja na forma de controle da organização biológica, seja instintos seja a “inteligência” humana propriamente dita.

    É um grande mistério o início desta escala de evolução, pois como os espíritos disseram ao final da resposta para a questão 450, citada pelo Elzio, “é assim que tudo serve tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, pois ele mesmo começou pelo átomo. Admirável lei de harmonia, de que seus Espíritos limitados não podem abranger o conjunto”. Tal resposta deixa entrever a possibilidade de que por detrás da organização da matéria, da energia tão bem estruturada em partículas elementares sob as leis da natureza, possa já estar atuando o principio inteligente em seus primórdios. Na mesma linha de raciocínio, Ernesto Bozanno, cita em seu livro “Os Animais tem Alma”, um pequeno trecho de uma obra mediúnica:

        O gás se mineraliza,
O mineral se vegetaliza,
O vegetal se humaniza,
O homem se diviniza.
(Old Truth in New Light, Lady Cathness)

    Por toda a linha de evolução, o processo é progressivo. Um espírito que atingiu o nível evolutivo suficiente para nascer no reino animal, não tem mais necessidade ou possibilidade de nascer em um vegetal. Da mesma maneira, o espírito que atingiu o nível dos primeiros primatas não volta ao animal. Finalmente, o homem moderno não teria como reencarnar no Australopitéco. A própria sofisticação do períspirito – definido por Hernani Guimarães Andrade como um modelo organizador biológico (vide seu livro Espírito, Períspirito e Alma), por conduzir os processos reencarnatórios, selecionando a bagagem genética e integrando-a as necessidades karmicas do espírito – tornaria impossível tal reencarnação. O “homo sapiens” de nossos dias, só pode reencarnar como “homo sapiens”, ou, caso tenha a necessidade de reencarnar em outros mundos, em um ser com uma organização nervosa equivalente em sofisticação. Mesmo em um desterro a mundo mais atrasado, o ser até nasceria em um hominídeo primitivo culturalmente, mais ainda assim, que reunisse as condições nervosas necessárias. Esta posição filosófica – distinta da adotada pela metempsicose grega e pelo Budismo – de que o ser humano sempre reencarna como ser humano, justifica as respostas dos Espíritos as questões 592 a 610 (Os animais e o homem), em que apresentam os animais como seres distintos dos homens. Estas questões, que levaram muitos espíritas a negar a continuidade espiritual entre os reinos da natureza, podem ser entendidas perfeitamente se considerada também a resposta à questão 611:

    “Duas coisas podem ter uma mesma origem e absolutamente não se assemelharem mais tarde. Quem reconheceria a árvore, suas folhas, suas flores e seus frutos no germe informe contido na semente de onde saíram? No momento em que o princípio inteligente atinge o grau necessário para ser Espírito e entrar no período de humanidade, não há mais relação com seu estado primitivo e não é mais a alma dos animais, como a árvore não é a semente. No homem, há somente de animal o corpo, as paixões que nascem da influência do corpo e o instinto de conservação inerente à matéria. Não se pode dizer, portanto, que tal homem é a encarnação do Espírito de tal animal; logo a metempsicose, tal como a entendem, não é exata.”

    Apesar da clareza desta resposta, foram necessários muitos anos para que se formasse o consenso em torno da questão. Pouco depois da época de Kardec, eminentes pesquisadores como Ernesto Bozzano (vide seu livro “Os Animais tem alma?”) e Gabriel Delanne, (vide seu livro “A reencarnação”) apresentaram provas inquestionáveis de que os animais tinham alma (espírito encarnado), que sobrevive a desencarnação tal qual a alma humana. Mais ainda, da mesma maneira, reencarnam e evoluem segundo as mesmas leis do progresso e de ação e reação.

    Nas últimas décadas, principalmente com a obra mediúnica de Francisco Cândido Xavier – veja-se, por exemplo, o livro “Evolução em Dois Mundos” do espírito André Luiz – a resistência a idéia praticamente desapareceu e hoje já é amplamente aceito que não há seres privilegiados na criação.

    “Evolução no Tempo: É assim que dos organismos monocelulares aos organismos complexos, em que a inteligência disciplina as células, colocando-as a seu serviço, o ser viaja no rumo da elevada destinação que lhe foi traçada do Plano Superior, tecendo com os fios da experiência a túnica da própria exteriorização, segundo o molde mental que traz consigo, dentro das leis de ação, reação e renovação em que mecaniza as próprias aquisições, desde o estímulo nervoso à defensiva imunológica, construindo o centro coronário, no próprio cérebro, através da reflexão automática de sensações e impressões, em milhões e milhões de anos, pelo qual, com o Auxílio das Potências Sublimes que lhe orientam a marcha, configura os demais centros energéticos do mundo íntimo, fixando-os na textura da própria alma.

    Contudo, para alcançar a idade da razão, com o título de homem, dotado de raciocínio e discernimento, o ser, automatizado em seus impulsos, a romagem para o reino angélico, despendeu para chegar aos primórdios da época quaternária, em que a civilização elementar do sílex denuncia algum primor de técnica, nada menos de um bilhão e meio de anos. Isso é perfeitamente verificável na desintegração natural de certos elementos radioativos na massa geológica do Globo. E entendendo-se que a Civilização aludida floresceu há mais ou menos duzentos mil anos, preparando o homem, com a benção do Cristo, para a responsabilidade, somos induzidos a reconhecer o caráter recente dos conhecimentos psicológicos, destinados a automatizar na constituição fisiopsicossomática do espírito humano as aquisições morais que lhe habilitarão a consciência terrestre a mais amplo degrau de ascensão à Consciência Cósmica” André Luiz, no livro Evolução em Dois Mundos.

Concepção deste mundo

– Budismo

        “(…) convém esclarecer que a verdade do sofrimento, enunciada pelo Buda em seu primeiro sermão, pertence à verdade relativa e não descreve a natureza última das coisas, pois aquele que atinge a realização espiritual goza de uma felicidade inalterável e percebe a pureza infinita dos fenômenos: nele, todas as causas de sofrimento desapareceram. Então, por que destacar tanto o sofrimento? Para tomar consciência, em um primeiro momento, das imperfeições do mundo condicionado. Neste mundo da ignorância, os sofrimentos se acrescentam uns aos outros: um de nossos pais morre, o outro o segue algumas semanas depois. As alegrias efêmeras se transformam em tormentos: parte-se para um alegre piquenique em família e nosso filho é picado por uma cobra. A reflexão sobre a dor, portanto, deve nos incitar a tomar o caminho do conhecimento. (…)” Matthieu Ricard, Ação sobre o mundo e ação sobre si mesmo, O Monge e o Filósofo, Ed. Mandarim.

    A ilusão de um “eu” individual leva ao egoísmo e a considerar as coisas deste mundo como permanentes. Este apego leva ao sofrimento. O homem deve libertar-se dessa ignorância, compreender que tudo é impermanente (transitório) e aí terá atingido a felicidade.    O ser que age para se libertar da ignorância, seguindo as regras do caminho óctuplo, vive longe dos extremos – nem o ascetismo exagerado, muito menos o apego desmesurado aos bens materiais – daí a expressão “caminho do meio”.  Pelo ideal do Bodhisattva, há a valorização do esforço para melhorar o mundo e trazer a felicidade para todos. O Budista deve sempre agir para diminuir o sofrimento, onde e da maneira que lhe for possível.

– Espiritismo

        “172 – Todas as nossas diferentes existências realizam-se na Terra? Não, vivemo-las nos diferentes mundos: as da Terra não são as primeiras nem as últimas, porém das mais materializadas e distantes da perfeição. 173 – A cada nova existência corporal a alma passa de um mundo a outro ou lhe é possível viver muitas vidas no mesmo planeta? Pode reviver várias vezes no mesmo planeta, se não estiver suficientemente avançada para passar a um mundo superior.” O Livro dos Espíritos.

    O mundo material é transitório, temos uma percepção limitada da realidade devido as nossas limitações de entendimento e de percepção. Como o mundo físico é uma escola na jornada evolutiva do ser, e as vissitudes da vida material desafios para o espírito, o verdadeiro espírita deve sempre procurar melhorar a si mesmo e, consequentemente, melhorar também seu modo de agir no mundo.  Assim, pela lei de caridade e pela prática da sabedoria, o espírita deve sempre procurar melhorar a situação de seu próximo e da sociedade em que vive. O Espiritismo não aprova os extremos, nem o ascetismo exagerado nem o apego aos bens matérias. Somos depositários temporários dos bens deste mundo e devemos emprega-los do melhor modo possível para o bem de todos.

– Análise

    A primeira vista, em um estudo superficial, o Budismo parece ter uma visão pessimista deste mundo, por sua aguda percepção do sofrimento e de suas causas. Isso, porém não corresponde a realidade, pois faz parte das bases doutrinarias do Budismo a conscientização de que é possível superar-se o sofrimento e agir de tal modo que se possa ter um razoável grau de felicidade já nesta vida. Desta maneira, a concepção do mundo – e consequentemente da ação do homem no mundo – valoriza o esforço no sentido do bem e do progresso.

    O Espiritismo por outro lado, valoriza imensamente as oportunidades de aprendizado oferecidas por este mundo material, enfatizando que o correto agir, conforme as leis morais resultam não só no progresso individual como no coletivo. Para o Espiritismo ainda estamos a caminho da verdadeira civilização, onde as leis de amor e de justiça serão aplicadas em sua verdadeira extensão. Para que esta civilização seja atingida, precisamos nós todos nos empenharmos no esforço de reforma interior e consequente mudança de comportamento.

    Uma vez que se compreenda que somos espíritos, temporariamente reencarnados em um corpo material com finalidades educativas e que tudo neste mundo é transitório, se tem uma nova visão do mundo e pode se atingir a felicidade relativa que nosso nível de progresso permite. A verdadeira felicidade só é atingida com o progresso do espírito e sua depuração de todas suas imperfeições.

    O fim do egoísmo, almejado tanto pelo Budismo, como pelo Espiritismo, transformam o individuo e o mundo ao seu redor. Não há o apelo para o abandono da ação no mundo, mas o redirecionamento desta ação. O melhor exemplo dentro do Budismo é o próprio Dalai Lama, em seu trabalho incansável – e pacifico, conforme as diretrizes de Buda – em prol de seu povo.

Responsabilidade frente ao destino

– Budismo

        Os fenômenos mentais têm como precursora a mente, fundam-se na mente, são feitas da mente;

        Se um homem fala ou age com mente corrupta, em consequência sofrimento o segue, como a roda nos passos do boi (que puxa a carroça). Os fenômenos mentais têm como precursora a mente, fundam-se na mente, são feitas da mente;

        Se um homem fala ou age com mente pura, em consequência felicidade o segue, como a sombra, que não vai embora. Os versos gêmeos, Dhammapada.

     O homem é totalmente responsável por seu destino. Tudo o que lhe ocorre é devido a lei de causa e efeito e ele tem o livre arbítrio relativo (condicionado por seu carma passado, que o coloca em uma situação mais ou menos difícil no presente) para agir e mudar seu futuro. Não há graça divina ou intervenção de um criador no destino individual de cada um. Grupos sociais – por serem formados de indivíduos com atuação em comum, portanto com compromissos similares com a lei de causa e efeito – também tem o seu “karma” coletivo. Da mesma maneira que com o individuo, um grupo social é totalmente responsável por seu destino, pois o que lhe ocorre é consequência dos atos de seus membros.

    Importante notar que o ser – no ciclo de reencarnações – pode nascer como qualquer criatura senescente. Não há nada que impeça que um homem renasça em um animal e vice-versa, se os seus atos o levarem a tal condição.

– Espiritismo

        “O nosso estado psíquico é obra nossa. O grau de percepção, de compreensão, que possuímos, é o fruto de nossos esforços prolongados. Fomos nós que o fizemos ao percorrer o ciclo imenso de sucessivas existências. O nosso invólucro fluídico, sutil ou grosseiro, radiante ou obscuro, representa o nosso valor exato e a soma de nossas aquisições. Os nossos atos e pensamentos pertinazes, a tensão de nossa vontade em determinado sentido, todas as volições do nosso ser mental, repercutem no períspirito e, conforme sua natureza, inferior ou elevada, generosa ou vil, assim dilatam, purificam ou tornam grosseira a sua substância. Daí resulta que, pela constante orientação de nossas ideias e aspirações, de nossos apetites e procedimentos em um sentido ou noutro, pouco a pouco fabricamos um envoltório sutil, recamado de belas e nobres imagens, acessível às mais delicadas sensações, ou um sombrio domicílio, uma lôbrega prisão, em que, depois da morte, a alma restringida em suas percepções, se encontra sepultada como num túmulo. Assim cria o homem para si mesmo o bem ou o mal, a alegria ou o sofrimento. Dia a dia, lentamente, edifica ele seu destino. Em si mesmo está gravada sua obra, visível para todos no Além. É por esse admirável mecanismo das coisas, simples e grandioso ao mesmo tempo, que se executa, nos seres e no mundo, a lei da casualidade ou de consequência dos atos, que outra não é senão o cumprimento da justiça” Léon Denis, O Espírito e sua forma, No Invisível – FEB

    O homem é totalmente responsável por seu destino. Além da lei de causa e efeito, há outras leis morais, entre elas a do progresso. Assim nosso livre arbítrio é relativo, limitado por nosso carma passado, pelo nosso “estágio” de desenvolvimento e pelas nossas necessidades educativas. Durante o período em que o ser necessita do ciclo de reencarnações, para sua evolução, há uma linha crescente de sofisticação dos corpos físicos utilizados para sua manifestação no mundo material, através dos renascimentos. O Espírito sempre evoluiu dos seres mais simples para os mais complexos e, embora possa estacionar temporariamente em um dos estágios, jamais regride. Assim, ao longo dos milênios, o vegetal se tornará animal, o animal evoluirá até atingir o estágio de ser humano, e o ser humano evoluirá até conseguir se tornar espírito puro, livre da necessidade da reencarnação. A evolução do espírito significa também a evolução do seu períspirito, cada vez mais sutil e apto a servir de intermediário na ligação com corpos físicos mais sofisticados. A reencarnação de um espírito que já atingiu o estágio da humanidade em um animal seria impossível devido a própria incompatibilidade do períspirito.

    O ser humano compartilha a mesma natureza espiritual dos demais seres sencientes, é diferente destes apenas por ser “mais velho” na jornada evolutiva. Seu espírito aprendeu as primeiras lições de vida – desenvolvendo os automatismos – nos vegetais, depois aprendeu as sensações e os instintos no mundo animal e, agora, na condição humana, tem como desafio aprender a usar a inteligência, a emoção e a intuição.

   A caminhada evolutiva, apesar de conquista individual de cada ser, pode ser feita em grupos afins (tal qual nas escolas há grupos de alunos que seguem juntos por diversas classes), com o amparo mutuo. Famílias, nações e mundos são grupos de indivíduos afins.  Estes grupos sociais estão sujeitos a compromissos comuns com a lei de causa e efeito. Compromissos que são consequência da atuação coletiva de seus membros ou das necessidades de aprendizado compartilhadas por eles.

– Análise

    Tanto os Budismos como o Espiritismo postulam a responsabilidade do homem, individualmente ou como membro de um grupo social, perante seu destino.

    Deve-se notar que há uma interessante diferença na amplitude aceita para os efeitos dos atos realizados pelo ser em sua existência. Para o Budismo, em consequência de seus atos, o ser pode renascer entre os reinos inferiores da natureza, mesmo depois de ter atingido a condição de ser humano. Para o Espiritismo, por seus atos o espírito pode estacionar, mas nunca regredir na escala evolutiva.

    Para a filosofia espírita, a evolução tem componentes morais e intelectuais. Nem sempre os dois são desenvolvidos pelo espírito no mesmo ritmo e isso pode resultar em ações que parecem incompatíveis com a situação aparente em que ele se encontra, mas que na realidade são manifestações de imperfeições ainda não superadas.

Atitude perante a Fé

– Budismo

        “Exatamente como as pessoas verificam a pureza do ouro queimando-o no fogo, cortando-o e o examinando numa pedra de toque, da mesma forma, ó monges, deveis aceitar minhas palavras depois de submetê-las a um exame crítico e não por reverência a mim” Buda, citado pelo Dalai Lama no livro “Transformando a Mente”. “Sua fé deve ser racional, baseada na inteligência, para que quando as pessoas questionarem e tentarem refutar sua crença e prática você esteja apto a sustentar seus argumentos; não pode cultivar uma fé cega. Por isso, deve basear sua crença em um alicerce firme. Com inteligência, você estará invulnerável a questionamentos. Do contrário, como dizem os mestres Kadampa, “a fé isoladamente é como um cego, que pode ser levado por outra pessoa a qualquer lugar se lhe faltar sabedoria”. Assim, a fé sustentada pelo conhecimento é indispensável à prática budista, enquanto que crença e compaixão exercidas isoladamente são características comuns a todas as principais religiões. Por isso, cultivando fé com base no alicerce correto, você será racional e firme”. Dalai Lama, cap. Principais meditações Lamrim, O Caminho da Felicidade.

    A doutrina Budista fundamenta-se em constatações feitas por Buda, que podem ser verificadas por qualquer pessoa. Naturalmente o esforço de verificação exige longo trabalho de preparação interior – pois o campo de pesquisas é a própria mente humana e tem por ferramenta a meditação. Com uso da meditação, o homem pode estudar a si mesmo e os seus processos mentais, desfazendo os enganos que o prendem a ignorância e ao mesmo tempo transformando-se para atingir a iluminação. Do ponto de vista Budista, a meditação é uma disciplina espiritual que permite controle sobre nossos pensamentos e emoções. Sob controle eles podem ser analisados e selecionados. Podem ser focados em objetivos determinados, levando a uma observação mais cuidadosa e profunda. Basicamente há a meditação “shamatha” – permanência serena – que mantém a concentração da atenção em um só objeto e a meditação “vipasyana” – discernimento penetrante – em que além da simples concentração da atenção, há o esforço do raciocínio em compreender o objeto da meditação.

    A importância da meditação e da transformação mental é tão grande no Budismo que este desenvolveu uma psicologia bastante interessante, com profundos conhecimentos sobre os processos mentais, sua relação com as leis de causa e efeito e com a situação do ser no mundo espiritual.

    Além da verificação direta e da dedução, o Budismo também reconhece como critério de verdade o testemunho – ou os ensinamentos – de pessoas fidedignas. Neste caso, o que torna estas pessoas fidedignas não é o seu conhecimento ou suas palavras, mas sim sua vivência da doutrina. Mestres espirituais que através de anos de estudo e de prática dos ensinamentos de Buda atingiram as experiências de que dão testemunho.

    O Budismo não desconhece os fenômenos mediúnicos, que até acabam ocorrendo como consequência das práticas de meditação, mas devido a seu enfoque na iluminação pelo fim da ilusão do “eu”, na autoanálise, nos fenômenos interiores, não os faz objeto de seu estudo.

 – Espiritismo

        “Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão, face a face, em todas as épocas da humanidade”, Allan Kardec, Evangelho Segundo o Espiritismo “Na dúvida, abstém-te, diz um de vossos antigos provérbios. Não admitais, pois, o que não for para vós de evidência inegável. Ao aparecer uma nova opinião, por menos que vos pareça duvidosa, passai-a pelo crivo da razão e da lógica. O que a razão e o bom senso reprovam, rejeitai corajosamente. Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira, uma única teoria falsa. Com efeito, sobre essa teoria poderíeis edificar todo um sistema que desmoronaria ao primeiro sopro da verdade, como um monumento construído sobre a areia movediça. Entretanto, se rejeitai hoje certas verdades, porque não estão para vós clara e logicamente demonstradas, logo um fato chocante ou uma demonstração irrefutável virá vos afirmar a sua autenticidade”. Erasto, Influência moral do médium, O Livro dos Médiuns.

    A ciência espírita se baseia necessariamente na existência dos espíritos e sua intervenção no mundo material. A verificação destas bases é feita pelo estudo das manifestações dos espíritos através dos fenômenos mediúnicos. Estas manifestações podem ser espontâneas ou provocadas. O que caracteriza a manifestação dos espíritos, frente a grande quantidade de fenômenos físicos existentes, é a vontade independente e a inteligência que demonstram.O estudo das manifestações dos espíritos, longe de ser um campo fácil de investigação, exige grande observação e estudo, pois se lida com seres independentes e não forças cegas da natureza. Como os fenômenos normalmente não são reprodutíveis a vontade em um laboratório, há que se dedicar a analisá-los quando ocorrem e considerar sempre seu conjunto.

    Como, em essência, o homem é um espírito encarnado, existem também fenômenos provocados pelo próprio “médium”, classificados sob a denominação de animismo, e que devem receber uma grande atenção para não serem confundidos com as comunicações dos espíritos e levarem a caminhos errados. O inconsciente, e suas manifestações na personalidade, são também fenômenos anímicos e nesta categoria são estudados pelo Espiritismo desde o seu surgimento.

    O estudo das manifestações dos Espíritos, além do objetivo de comprovação cientifica das bases da Doutrina, também tem o escopo de aprofundar os conhecimentos sobre o Espírito, sua situação no mundo espiritual, as leis que regem seu destino e as que regem a comunicação entre o mundo material e o espiritual. Este estudo também acompanha o avanço das ciências, de modo que o Espiritismo esteja sempre a par dos progressos realizados nos demais campos do conhecimento humano.

    Partindo da base fornecida pelas manifestações dos espíritos, o Espiritismo também estuda as comunicações obtidas através delas. Assim pode se dizer que a “Ciência Espírita compreende duas partes: uma experimental, sobre as manifestações em geral; a outra, filosófica, sobre as manifestações inteligentes. Quem quer que tenha observado somente pelo ângulo da primeira, está na posição daquele que conheceria a Física apenas pelas experiências recreativas, sem haver penetrado no fundamento da Ciência. A verdadeira Doutrina Espírita está no ensinamento dado pelos Espíritos e os conhecimentos que esse ensinamento comporta são muito sérios para poderem ser assimilados de outro modo que não seja por um estudo profundo e contínuo, feito no silêncio e no recolhimento; porque só nestas condições se pode observar um número infinito de fatos e de nuanças que escapam ao observador superficial e permitem firmar uma opinião” (Allan Kardec, Introdução ao “Livro dos Espíritos).

    Um aspecto a ser comentado, é que o avanço de algumas disciplinas cientificas acadêmicas rumo as realidades espirituais as tem  colocado em relação próxima com o Espiritismo. Assim é comum encontrarem-se Espíritas contribuindo diretamente nas áreas de psicologia, com a Psicologia Transpessoal e  a Terapia de Vidas Passadas, e de medicina,  com a psicossomática e a homeopatia.

– Análise

    Parece-me que o Budismo e o Espiritismo avançam para resultados muito semelhantes tendo dois pontos diferentes de partida. Enquanto o Budismo – dentro de um contexto cultural oriental – parte dos fenômenos internos ao individuo em direção à realidade que lhe transcende, o Espiritismo parte das manifestações dos espíritos, do mesmo individuo liberto da matéria, em direção a mesma realidade. As duas Doutrinas rejeitam a fé cega e enfatizam a necessidade do estudo prolongado e sério. Não basta só procurar, há que se saber como…

IV – Prática

Impacto na sociedade

– Budismo

        “Que eu seja motivo de prazer de acordo com a vontade de todos os seres sencientes e sem interferência, como são a terra a água, o fogo, o vento, as ervas medicinais e florestais”. Que eu seja caro aos seres sencientes. Como sua própria vida, e que eles me sejam caros.
Que seus pecados frutifiquem para mim. E todas as minhas virtudes para eles.

        (…)“Enquanto perdurar o espaço, enquanto persistirem os seres sencientes, que eu também possa permanecer para dissipar as desgraças do mundo.” Estrofes de textos budistas citadas pelo Dalai Lama para explicar os ideais de um Bodhisattva Do livro Transformando a Mente.

    O Budismo considera que a fonte dos problemas econômicos e sociais é o apego ao “eu”, o “egoísmo”. Sua influência visa diminuir o egoísmo nos indivíduos e através da melhora do individuo, melhorar a sociedade. Considera que todos os seres sencientes (que buscam a libertação do sofrimento) têm direitos e que devem ser tratados com compaixão.

– Espiritismo

        “O homem que se ilumina conquista a ordem e a harmonia para si mesmo. E para que a coletividade realize semelhante aquisição, para o organismo social, faz-se imprescindível que todos os seus elementos compreendam os sagrados deveres de auto iluminação” Emmanuel, médium Francisco Cândido Xavier, da resposta a questão 234, O Consolador – FEB.”Na hora atual da humanidade terrestre, em que todas as conquistas da civilização se subvertem nos extremismos. o Espiritismo é o grande iniciador da Sociologia, por significar o Evangelho redivivo que as religiões literalistas tentaram inumar nos interesses econômicos e na convenção exterior de seus prosélitos.

        Restaurando os ensinos de Jesus para o homem e esclarecendo que os valores legítimos da criatura são os que procedem da consciência e do coração, a doutrina consoladora dos Espíritos reafirma a verdade de que a cada homem será dado de acordo com seus méritos, no esforço individual, dentro da aplicação da lei do trabalho e do bem; razão pela qual representa o melhor antidoto dos venenos sociais atualmente espalhados no mundo pelas filosofias politicas do absurdo e da ambição desmedida, restabelecendo a verdade e a concórdia para os corações” Emmanuel, médium Francisco Cândido Xavier, da resposta a questão 59, O Consolador – FEB.

    O Espiritismo considera que a fonte dos problemas econômicos e sociais é o egoísmo, fruto da ignorância e do pouco progresso moral dos indivíduos que formam as sociedades. Sua influência visa diminuir o egoísmo e através da melhora do individuo, melhorar a sociedade.  Considera que todos os seres vivos são solidários (o progresso do espírito se dá através de uma longa cadeia evolutiva dos seres mais simples aos mais complexos) e, portanto tem direitos, todos devem ser tratados com caridade.

– Análise

   A reforma de uma sociedade não pode ser feita apenas através de leis externas, sem alterações fundamentais nos indivíduos que a compõe. Liberdade, igualdade e fraternidade são, em essência, conquistas que só poderão ser verdadeiramente estabelecidas quando o egoísmo tiver sido combatido eficazmente. O combate ao egoísmo exige uma transformação mental ou moral, decorrente de uma salutar disciplina espiritual. Não de trata de almejar uma sociedade regida por normas religiosas, ou dogmas, pois tanto o Budismo como o Espiritismo, não os tem, mas de uma sociedade em que a prática da compaixão, da caridade e do amor ao próximo são normas livremente escolhidas por seus cidadãos. A escolha, por sua vez, não decorre da adesão cega a uma fé, mas a certeza adquirida no estudo próprio, de que a realidade última transcende a matéria – que somente o desapego ao eu e a adesão a normas morais universais trazem a verdadeira felicidade.

Organização Interna

  – Budismo

    “Ele cujo prazer é o Darma, que se deleita no Darma, que medita no Darma”.
“Que evoca o Darma -, este bikshu não renega o verdadeiro Darma”.
Verso 364 – Dhammapada, trad. Nissim Cohen, ed. Palas Athena “O homem que desejar ser meu discípulo deverá abandonar todas as relações diretas com a família, a vida social mundana e toda a dependência a riqueza. O homem que tiver abandonado tais relações em prol do Dharma e não tiver abrigo para o corpo e a mente tornar-se-á meu discípulo e será chamado de irmão sem lar.”

    Os Irmãos sem Lar, A Doutrina de Buda, Siddharta Gautama, ed. Martin Claret.

    “Para se tornar um irmão leigo, deve-se ter uma inabalável fé em Buda, deve-se acreditar em Seus ensinamentos, estudar e pôr em prática os preceitos, e deve-se apreciar a Fraternidade.”

    Os Irmãos Leigos, A Doutrina de Buda, Siddharta Gautama, ed. Martin Claret.

    Desde o início das pregações de Buda, a prática de seus ensinamentos em todos os seus desdobramentos – com seus altos níveis de realização espiritual em busca da iluminação – levou algumas pessoas a se desligarem completamente das atividades mundanas e a se dedicarem a uma vida de renuncias e de meditações. Estas pessoas, chamadas de bikshus (inicialmente com o sentido de monges mendicantes), formam a “Sangha”, a comunidade de monges budistas. A continuidade desta comunidade, com variações de forma e organização pelos vários países pelos quais o Budismo se propagou, tem sido o principal fator de preservação e divulgação do Dharma.    Os ensinamentos de Buda também podem ser seguidos e praticados sem que o discípulo se desligue completamente de seus laços com a familia e a sociedade. Naturalmente ele não poderá se dedicar tão intensamente as práticas de meditação. O resultado deste fato é que, ao lado da Sangha, existem os budistas leigos.

    Assim a diferença entre os monges e os outros budistas está na intensidade com que podem se dedicar ao Dharma. Os monges dedicam-lhe todo o seu tempo.

 – Espiritismo

    “O médium é um companheiro”.

    É um trabalhador.

    É um amigo.

    “E é sobretudo nosso irmão, com dificuldades e problemas análogos àqueles que assediam a mente de qualquer espírito encarnado”.

    “VI-Médiuns, Mediunidade e Sintonia, Emmanuel, médium Francisco Cândido Xavier, Ed”. CEU” Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para dominar suas más inclinações”.

    “Os Bons Espíritas”, no cap. XVII (Sede Perfeitos) do “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, Allan Kardec, EDICEL

    “Embora este regulamento tenha resultado da experiência, não o damos como um modelo obrigatório, mas unicamente para facilitar às sociedades em formação, que poderão tomar por normas as disposições que considerem úteis e aplicáveis às circunstâncias que lhes sejam próprias. Não obstante já se apresente simplificada, a sua estrutura poderá ser ainda mais reduzida quando se trate não de sociedade regularmente constituída, mas de pequenos grupos particulares que só necessitem de estabelecer medidas de ordem interna, de preservação e de regularidade de seus trabalhos”

    Cap. XXX – Regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, o “Evangelho Segundo o Espiritismo”, Allan Kardec, EDICEL

    Não há um “ascetismo” espírita, no sentido de uma classe de monges dedicados ao eu estudo e divulgação. Muito menos uma hierarquia, pois a Doutrina Espírita não impõe uma forma de organização. A forma de organização proposta por Allan Kardec foi  a adotada pela “Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas” [1]  que serviu de modelo para os grupos espíritas posteriores, do mesmo modo que a “Revue Spirite” foi o modelo para o jornalismo espírita.    Assim. ao longo da história do Espiritismo, se formou um “movimento espírita” organizado em torno de grupos espíritas. Surgiram grupos com diversas finalidades – estudo, atividades filantrópicas, reuniões religiosas, etc…
Também surgiram entidades maiores como federações e associações nacionais.

    Importante notar que se pode perfeitamente ser espírita sem pertencer a nenhum grupo espírita. Do mesmo modo, não há nenhuma obrigação de que um grupo se filie a uma associação ou outra. A organização do movimento espírita é totalmente voluntária e visa apenas juntar esforços no estudo, na prática e na divulgação da Doutrina. Não há privilégios ou prerrogativas doutrinárias associadas a qualquer posição dentro do movimento espírita [2].

    Uma forma muito comum de grupo espírita é o familiar. Amigos e parentes que se reúnem periodicamente para o estudo das obras básicas, principalmente do estudo do evangelho.  Muitos dos grupos maiores nasceram em reuniões familiares, pelo aumento do número dos participantes e principalmente em torno de personalidades marcantes do movimento espírita. Pelas próprias características da Doutrina, os médiuns acabam desempenhando o papel de núcleo dos diversos grupos e ponto de referência para os demais indivíduos.

    A mediunidade, como faculdade natural no ser humano, efetivamente não dá a ninguém privilégios especiais dentro do Espiritismo. Apenas capacita o médium a ser um trabalhador em benefício de todos.

– Análise

    A forma de organização difere entre o Budismo e o Espiritismo.  A diferença está na existência entre os budistas, da “Sangha”, a comunidade de monges dedicados ao estudo e divulgação do Dharma. No Espiritismo, tanto o estudo como a divulgação, podem ser feitos individualmente ou por grupos formados voluntariamente por seus adeptos, sem votos especiais.

[1] – Vide “O Livro dos Médiuns” (cap. XXIX – Reuniões e Sociedades e XXX – Regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas) ou “Obras Póstumas” (“Constituição do Espiritismo”).

[2] – As estruturas existentes dentro dos grupos espíritas são puramente administrativas e operacionais.

Ritos

– Budismo

    “O ritual – que consiste em molhar o ombro esquerdo, o direito e depois as costas da imagem – simboliza a purificação da mente” (Uma breve explicação do ritual de despejar agua em uma imagem de Buda menino. Este ritual fez parte de uma celebração budista que teve lugar no parque Ibirapuera, comemorando o nascimento, a iluminação e a morte de Buda. “Celebração faz o Ibirapuera virar templo budista”, Mauro Mug, Jornal O Estado de São Paulo, 27 de maio de 2002)

    “Pense em todos os milhões de homens e mulheres que inclinaram suas cabeças em oração  enquanto acendiam velas. Será que alguém acredita que Buda, ou qualquer outra imagem do absoluto, precisa de uma vela para enxergar ou se aquecer ? Acender uma vela é um ato simbólico, uma forma ritualizada de oferecer luz a escuridão. A vela simboliza a luz interna e a sabedoria luminosa que nos guia através da escuridão da ignorância e da confusão. A chama brilhante da vela é um lembrete externo da luminosidade interna e da clareza – a chama viva espiritual que brilha no templo do coração e da alma”. O Despertar do Buda Interior, cap. “Hoje, agora mesmo”, Lama Surya Das, trad. Anna Lobo, ed. Rocco.

    No Budismo, os rituais tem um papel importante de auxiliares nas práticas de meditação e de formas simbólicas de expressão dos seus ensinamentos.

    O papel do simbolismo pode ser avaliado em sua correta dimensão quando se considera que a Doutrina foi ensinada oralmente por Buda e só posteriormente transcrita. Mesmo após seu registro na forma escrita, a forma mais valorizada da passagem do Dharma foi, e continua sendo, a transmissão viva de um mestre para seus discípulos. Assim, símbolos e rituais correspondem a uma forma muito eficaz de fixar ideias e memorizar ensinamentos complexos.

    Também o contato do Budismo com outros povos, e sua grande tolerância religiosa, o levou a absorver práticas de diversas origens e transformá-las conforme sua mensagem. Assim, por exemplo, encontramos no Budismo Tibetano rituais que remontam as práticas ancestrais do Tibet.

    Em essência seria possível  conceber o Budismo sem rituais. É perfeitamente possível seguir o caminho óctuplo sem eles e nada nas “Quatro Nobres Verdades” está amarrado a suas práticas. Mas seria uma visão muito parcial e despojaria o Dharma de toda sua riqueza simbólica acumulada em mais de 2.500 anos de história.

– Espiritismo

    “653 – A adoração tem necessidade de manifestar-se exteriormente? – A verdadeira adoração é a do coração. Em todas suas ações, lembrem sempre que o senhor os observa”. O Livro dos Espíritos

    “653a – A adoração exterior é útil? Sim, se ela não representar um vão simulacro. É sempre útil dar um bom exemplo, mas os que o fazem apenas por afetação e por amor-próprio, e cuja conduta desmente a sua aparente piedade, dão um exemplo antes mau do que bom, fazem mais mal do que supõem”. O Livro dos Espíritos.

    O Espiritismo não tem rituais, principalmente por considerá-los desnecessários frente a prática sincera do amor ao próximo. Importante observar que ele respeita todas as crenças sinceras e suas formas de manifestação.

    Normalmente as reuniões espíritas são organizadas conforme a finalidade do grupo há reuniões de estudo de obras espíritas, reuniões com palestras doutrinárias, reuniões de auxilio espiritual, onde se aplicam passes e reuniões mediúnicas dos mais diversos tipos. As manifestações mediúnicas variam grandemente, desde reuniões dedicadas a psicografia ou a pintura mediúnica, até o atendimento a espíritos sofredores desencarnados.

    As aplicações de passe também tomam formas diferentes conforme as características dos grupos e o tipo específicos de ação curativa que se almeja alcançar. Embora em alguns grupos as aplicações de passe possam parecer gestos ritualísticos, são na realidade técnicas desenvolvidas ao longo do tempo para dar maior eficiência à transmissão dos fluidos magnéticos aos pacientes.

    Sem fugir ao escopo deste artigo, gostaria de observar que os passes são aplicados com o intuito de assistência ao próximo e essencialmente não são exclusividade da doutrina espírita. Embora sua origem remonte a antiguidade – o próprio Jesus o aplicava aos doentes – seu estudo moderno foi retomado a partir de Mesmer no século XVIII e reconhecido pela doutrina espírita como uma das consequências da existência do espírito humano e do períspirito. O termo “fluido” e “magnetismo” devem, portanto ser entendidos dentro de um contexto próprio, evitando-se confusão com a nomenclatura atual da física.

    O conjunto de conhecimentos que forma a Doutrina Espírita tem como uma de suas formas principais de transmissão a palavra escrita. Desde as obras básicas de Allan Kardec até as obras espíritas da atualidade, os espíritos e os espíritas tem preferido a forma direta de exposição. Também, por seu carácter de ciência experimental, os conhecimentos são resultados de pesquisas e análises, reprodutíveis dentro de regras próprias da comunicação com o plano espiritual (1). Assim o papel do simbolismo religioso dentro da doutrina espírita é bastante limitado ou praticamente inexistente.

– Análise

    A distância que separa o Budismo do Espiritismo na questão dos ritos é exatamente a distância histórica entre o surgimento de cada um dos dois. O Budismo tendo nascido em uma época e cultura onde a tradição oral era o veículo por excelência da transmissão de uma filosofia, desenvolveu técnicas apuradas de simbolismo. Seus ritos e símbolos são a representação viva de seu conteúdo doutrinário. O Espiritismo por outro lado, tendo nascido imediatamente após o Iluminismo, no período que para a cultura ocidental ficou conhecido como o Século das Luzes, se empenhou em transmitir diretamente seus conhecimentos, principalmente através da palavra escrita. Dentro deste contexto, para o Espiritismo, os rituais e os símbolos não trariam contribuição efetiva e são considerados dispensáveis.

1 – No estudo do mundo material, ao qual se dedica a Física, é importante para uma ciência que todos os seus fenômenos sejam reprodutíveis por quaisquer experimentadores, dadas as mesmas condições de experimentação. Assim a lei da gravidade de Newton, ou as equações de onda de Maxwell, podem ser verificadas por qualquer cientista que se disponha ao empreendimento.

    No caso da Ciência Espírita, onde se estudam fenômenos ligados ao espírito humano, que tem um grau de liberdade muito maior que as grandezas físicas, a reprodução dos experimentos exige muito maior preparação do experimentador e principalmente muito maior compreensão das condições de contorno que podem afetar o experimento. Assim, para reproduzir os trabalhos de Sir William Crookes com as materializações de Kate King o experimentador teria não somente de obter uma médium com possibilidades mediúnicas equivalentes as de Miss Florence Cook, como também teria de ter a mesma seriedade nos propósitos. Na ciência do espírito, o estado de espírito do experimentador influência decisivamente os resultados – alguém dedicado a experiências frívolas ou sem maiores propósitos de edificação espiritual encontraria somente espíritos do mesmo gabarito a auxiliá-lo. Provavelmente não passaria de resultados medíocres e de fraudes vergonhosas.

V – Conclusão

        (…) nós reconhecemos a existência de seres superiores, pelo menos de um certo estado superior do ser, nós acreditamos nos oráculos, nos presságios, nas interpretações dos sonhos, na reencarnação. Mas essas crenças, que para nós são uma certeza, não tentamos, de maneira alguma, impô-las às pessoas. Repito: não queremos converter. O Budismo se atém acima de tudo aos fatos. Ele é uma experiência, e até mesmo uma experiência pessoal. Lembre-se das tão famosas palavras de Shakyamuni: “Espere tudo de você mesmo”. XIV Dalai Lama (A Força do Budismo)

    Deixando-se de lado as questões metafisicas, que para o Budismo não são essenciais, as duas doutrinas – os dois caminhos espirituais – são extraordinariamente afins.    Um Budista e um Espírita trocando ideias perceberiam rapidamente que concordam no essencial, nos meios para tornar o homem livre de sofrimentos, e que as discordâncias de detalhes têm mais a ver com visões culturais diferentes do que propriamente com a “essência” dos ensinamentos.

    Para o Espírita a psicologia budista traz ensinamentos valiosos e para o Budista os conhecimentos científicos espíritas lhe permitiriam estender sua compreensão de como o fluxo de consciência “não material” atua sobre o mundo material.  Por exemplo, no estudo da lei de Causa e Efeito, juntar os enfoques diferentes – a ciência Espírita com a atuação do períspirito e o Budismo com o funcionamento da mente – abriria novas perspectivas.

    Um exemplo de um trabalho bastante interessante, unindo os enfoques Budista e Espírita, é o livro “Plenitude”, do espírito Joanna de Ângelis, psicografado pelo médium Divaldo Pereira Franco. Neste livro, a autora aborda o problema do sofrimento, sua existência, suas causas e forma de eliminação. É um estudo bastante criterioso e consistente, onde conceitos milenares do Budismo integrados aos conhecimentos Espíritas fornecem o ferramental adequado para aprofundar o tema e dar-lhe solução.

    Tanto o Espiritismo como o Budismo dão pouco valor ao proselitismo (a busca de conversões) e enfatizam o respeito a todas as tradições religiosas, assim não há fontes de conflito ou empecilhos maiores a troca de ideias e ao dialogo.

Carlos Alberto Iglesia Bernardo

http://espacoespiritual.wordpress.com/2011/11/05/budismo-e-espiritismo-parte-2/